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Dia dos Professores, dia de pensar sobre Educação



Há algum tempo venho ensaiando um novo texto sobre Educação. Hoje, Dia dos Professores, resolvi postar algumas ideias. Afinal, após passar alguns meses frente a uma sala de EJA, na verdade uma sala de um projeto voltado a alunos com imensas dificuldades, vejo reforçadas várias de minhas crenças, em especial a de que a Educação precisa ser reformulada por completo. E urgentemente! 

Os desafios que os professores enfrentam diariamente tem íntima ligação com esse nosso método tradicional e ultrapassado de ensinar. Ou, talvez melhor dizendo, de tentar transmitir conhecimento. Mas a cada dia que passa, mais sentido faz, para mim, o que diz José Pacheco: estamos em pleno século XXI, ensinando como no século XIX, e com fundamentos filosóficos do século XVII. Mas quanta coisa mudou neste período? Quanto avançamos? E por que a escola continua repetindo a mesma fórmula até hoje?

Num mundo globalizado, em constante movimento, com informações de todos os gêneros ao alcance de um “clique”, como temos hoje, com as crianças e jovens dominando as novas tecnologias com velocidade muito maior do que seus pais, como podemos querer alunos estáticos, sentados pacientemente, enquanto o professor todo-poderoso fica à frente da sala derramando seu conhecimento? Isso já não funcionava quando eu era garota, o que dirá agora, com crianças e jovens ainda mais conectados do que seus pais! Se antes tínhamos álbuns de figurinhas, jogos de "stop", e outras diversões para nos distrair, hoje existem os celulares! Mudou a tecnologia, mas a finalidade é a mesma: fugir da chatice de uma aula expositiva!

A Educação, como é hoje, não busca necessariamente que o aluno aprenda. Busca que o aluno "tire nota" e "passe de ano" até se formar. Os próprios professores se acostumam, muitas vezes, com este sistema, e consideram os alunos aptos ou não de acordo com as notas que tiram. Os pais, de modo geral, não perguntam aos filhos o que eles aprenderam, perguntam que nota eles tiraram! É uma inversão de valores, como se a nota determinasse realmente o quanto o aluno aprendeu! Ah tá! Então me respondam com sinceridade: quantos alunos tiram 10 “colando”? Quantos alunos tiram 0 por terem um “branco” na hora da prova? Quantos alunos no dia seguinte à prova já não lembram o que estudaram, porque só o fizeram para “tirar nota”? 

Já contei em texto anterior sobre a experiência que a escola de minha irmã fez ao perceber que ela ia “mal” em matemática, apesar de a professora achar que ela sabia a matéria. Aplicaram um exercício para a classe e corrigiram o dela para ver a nota que ela tiraria. Tiraria 9! No dia seguinte, o mesmo exercício foi dado com o nome de “prova”... ela tirou 3! Ela não sabia a matéria ou tinha pânico daquilo? O que a escola devia fazer? Aprovar porque ela sabia a matéria ou reprovar porque ela não tinha nota?

Já ouvi professores dizendo que, para ser aprovado, o importante é que o aluno atenda aos requisitos básicos da série seguinte, já que ninguém vai aprender tudo mesmo... por que não??? Óbvio! Não é culpa do professor nem do aluno, mas o sistema não permite isso! O sistema que temos determina um cronograma anual padrão para todos, com os conteúdos divididos em anos ou séries, e subdivididos por bimestres ou trimestres. O professor tem que passar todo o conteúdo previsto, quer os alunos aprendam, quer não. Consequentemente, alguns alunos aprendem mais, outros menos, não há como uniformizar. E este sistema vai permitir ao aluno avançar se conseguir atingir a média determinada pela escola, que pode ser 5, 6, 7... o critério também varia. 

Então, pais exigentes colocam seus filhos em escolas “fortes”, que empurram conteúdo atrás de conteúdo e exigem notas altas, preparando (esperam eles) os alunos para a competitividade do vestibular e do mercado de trabalho, e pouco importando se os alunos são massacrados, se estão estressados, desgastados, ou não tem tempo de serem crianças ou jovens. Estes pais, muitas vezes, ainda arrumam atividades extracurriculares para que os filhos se desenvolvam ainda mais, pensando no futuro e esquecendo do "hoje", e de forma bem comum, ainda castigam os filhos que vão “mal”. 

Enquanto isso, pais de “alunos problema”, após se estressarem com as tarefas e as notas que os filhos não atingem, com reclamações contínuas das escolas, buscam escolas “fracas”, que não exigem muito para passar de ano, e assim os filhos conseguem logo o diploma e eles se livram mais rápido deste tormento! Não importa o aprendizado que vai restar, afinal, o importante é aprender “pelo menos o básico”. 

Existem, ainda, aquelas escolas que tiveram a “progressão continuada” implementada (uma ideia interessante mas pessimamente aplicada), onde os alunos simplesmente passam de ano, sabendo ou não o conteúdo. Avançam sem saber praticamente nada, tornando-se analfabetos funcionais, sem condições de cursar uma faculdade e ingressar no mercado de trabalho “de igual para igual”. Aliás, são vítimas deste sistema que tenho em minha sala hoje. Alunos que estariam na 5ª, 6ª, até na 8ª série e que mal sabiam ler, escrever e somar! Como pode?

Está tudo errado!

E o “problema” começa lá na Educação Infantil, crescendo como “bola de neve” durante toda a sequência do Ensino Fundamental e Médio. Começa por partirem de um pressuposto absurdo que todas as crianças da mesma faixa etária estão em um mesmo ponto de aprendizado e maturidade. Oras! Se hoje é fato mais do que aceito que cada pessoa tem um ritmo e uma forma de aprender, como ainda pode ser aceito este pressuposto? Ainda mais em uma época em que a inclusão já é exigida por lei e deveria ser realidade de fato nas escolas (se nem com lei é, imagina sem lei?), como se pode nivelar os alunos? Como é possível querer padronizar o ensino? Como é possível querer que todos os alunos da mesma série atinjam os mesmos objetivos? Como é possível querer que todos aprendam da mesma forma, se sabemos, através de Gardner, da existência das inteligências múltiplas? Não se consegue! Não tem como! Ainda assim, virou “moda” falar na tal padronização do ensino e se exaltar as qualidades das benditas apostilas! 

Pensem bem: se hoje é fala recorrente que não devemos sequer comparar o desenvolvimento de BEBÊS, o que dirá de crianças e jovens! Um bebê rola antes, outro balbucia antes, outro pega coisas antes. Um bebê anda cedo, o outro fala cedo. Há, ainda, aquele que faz tudo tarde, seja por uma deficiência, seja por característica própria, ou mesmo por falta de estímulos adequados. Estes bebês, ao crescerem um pouco, ingressarão em creches ou escolinhas e, se tiverem a mesma idade, serão tratados da mesma forma, farão as mesmas atividades. Há escolinhas que já têm apostilas desde o maternal, que têm PROVAS na Educação Infantil! Mas aquele que andou cedo talvez precise ser mais estimulado na fala, na expressão oral. O que falou cedo talvez precise de mais estímulos na parte motora. O que fez tudo mais tarde talvez precise de um trabalho diferenciado, mais próximo, estimulando todas as áreas. Mas tentarão, exaustivamente, que eles sejam igualados, nivelados, para que possam, juntos, chegar ao Ensino Fundamental. 

Juntos? Será? Qualquer professor de 1º ano pode dizer se seus alunos chegam no mesmo ponto. Claro que não! São crianças diferentes, com histórias diferentes, com estímulos diferentes, com características diferentes. Dentre os alunos que ingressam no 1º ano, há desde aqueles que já chegam alfabetizados, àqueles que jamais viram uma letra na vida! Como podem ser tratados da mesma forma? Alguns, ou todos, sairão prejudicados! Ou irão frear aquele que está mais à frente, ou irão acelerar quem está mais atrás (e em determinado momento, deixarão de prestar atenção a ele, porque o que vale mesmo é o “bom aluno”), ou farão um pouco de cada. O ritmo individual de cada um não será respeitado, novamente. Buscarão, mais uma vez, o nivelamento, que se segue vida escolar afora.

Mas, como esse nivelamento é fictício, passamos a aceitar que "nenhum aluno vai aprender tudo mesmo", a perceber que temos alunos muito bons em português mas péssimos em matemática (ou vice-versa, ou qualquer outra disciplina), a rotular aqueles que não estão caminhando da forma esperada como “alunos-problema”, e a encaminhá-los para alguma terapia (o problema é dele, não da escola, afinal). E a consequência, muitas vezes, é a perda do interesse do aluno no aprendizado. O que estava mais à frente e tem de ser freado, perde o interesse porque aquilo para ele é muito fácil. O que estava mais atrás, perde o interesse porque não dá conta. No ensino público, então, temos ainda um agravante. Os tais “alunos-problema” chegam em determinado ponto e são “convidados” a ingressar no EJA (mais rápido, mais fácil, menos conteúdo e não sou eu mesmo quem vou ter que cuidar, graças a Deus!), que muitas vezes vira “depósito” destes alunos, e ainda, no caso do curso noturno, larga um monte de jovens ociosos nas ruas durante todo o dia.

Ah, mas é claro que existem exceções. Alunos que se enquadram bem neste esquema, que gostam (ou aprendem a gostar) desta forma de estudo, e que até aprendem de fato. Estes espécimes raros, os tais “CDF’s” ou “nerds”, tiram sempre boas notas em todas as disciplinas, tornam-se orgulho de suas famílias, acabam disputados pelas escolas, que fazem os tais “vestibulinhos” para poder selecionar só aqueles alunos que interessam (leia-se: bons alunos, que não dão trabalho, que vão passar em bons vestibulares e “fazer o nome” da escola). 

Aliás, que coisa mais grotesca os tais vestibulinhos! São massacrantes para as crianças, derrubam a autoestima daqueles que não são aprovados, e são, ainda, tremendamente excludentes (óbvio). Se eu já acho que a faculdade deveria ser direito de todo aluno que finaliza o Ensino Médio, sem precisar passar por seleção alguma depois (se tem o diploma do Ensino Médio, afinal, é porque já passou por todas as avaliações necessárias), que dirá para ingressar na escola, que é direito de TODOS, segundo a Constituição Federal! 

Ensina-se, desde o princípio, que a criança deve ser competitiva, deve brigar por seu lugar, e que tem sempre que ser melhor que os outros, derrotar os que são “menos”, pois quem não “vence” não tem valor. E as escolas favorecem ainda mais essa competição, mesmo que não façam uso dos vestibulinhos, mas deixam de lado o aluno com dificuldade (tenha ou não deficiência) ou supervalorizam os “bons” alunos, expondo aqueles que se “destacaram” em determinado período. Como acham que é para um aluno que tenha dificuldade de aprendizado ver os colegas sendo aplaudidos, cumprimentados, valorizados, enquanto ele luta tanto para tentar atingir os objetivos propostos? E para os tais “destaques” e seus pais? Não é uma superinflada de ego?

Ok então... mas qual seria a saída? A saída é a reformulação total do ensino. A abolição das séries, das apostilas, das padronizações. A implementação da Educação para a autonomia, que respeita o ritmo do aluno e permite que todos aprendam tudo, cada qual no seu tempo e do seu jeito, que ensina a solidariedade, quando um ajuda o outro e fica feliz com a conquista alheia, que valoriza o diálogo e análise crítica dos fatos, ao colocar os alunos para estabelecer regras e solucionar eventuais conflitos. Temos vários e vários exemplos em todo o mundo, e mesmo aqui no Brasil, de escolas agindo de outra forma e conseguindo excelentes resultados. Aliás, já há até faculdades buscando essa visão de ensino.

Na Educação para a autonomia o aluno é ensinado, desde pequeno, a ir em busca do conhecimento, não há nada pronto, “de bandeja”. Os menores, além de terem todo o lúdico disponível (afinal, criança tem que brincar, em primeiro lugar), são também ensinados a agir com autonomia. Da mesma forma, os alunos que ingressam em escolas com este formato têm que ter um período de adaptação, faz parte. Essas escolas têm espaços amplos, salas de estudo sem separação por “nível”, “série” ou coisa que o valha, ao invés das salas de aula tradicionais. Têm pátios, jardins, que também se transformam em locais de estudo. Os professores, todos, estão sempre à disposição de todos os alunos, prontos a auxiliar quem tem dúvida ou está com dificuldade para entender algo.

A cada período (semanal, quinzenal, ou qualquer outro, a critério da escola) o aluno, em conjunto com seu orientador, determina um plano de estudo com os conteúdos que ele deverá aprender no período subsequente. Ele então deverá pesquisar (na biblioteca da escola, em tantos livros quantos forem necessários, ou mesmo na internet), comparar as informações das diversas fontes, buscar entender, de fato, aquilo que lhe foi proposto para que possa, quando se sentir seguro, ser avaliado. 

Se surgir alguma dificuldade, os colegas podem auxiliá-lo, ou ele pode pedir a um professor (que não necessariamente é o seu orientador, mas um que tenha domínio do conteúdo) que o socorra. Ele pode estudar na sala ou em qualquer outro espaço da escola que lhe agradar mais. 

Quando acredita já ter aprendido o conteúdo proposto, PEDE e é avaliado da forma que for mais interessante naquele momento. Isso inclui ter que explicar o tema, ou escrever a respeito, dar exemplos, desenvolver um projeto, debater o assunto com o professor, não necessariamente realizar exercícios de repetição. Deve-se mostrar APRENDIZADO, e não mera “decoreba” ou “mecânica”. Ao final da avaliação, o professor responsável verificará se o objetivo foi mesmo atingido, e o aluno poderá seguir adiante, ou se tem algo ainda a ser reforçado, e o aluno é orientado a rever aqueles pontos antes de prosseguir. Não há sentido, a partir do momento em que se espera que os alunos aprendam TUDO, em avançar quando ainda há pontos obscuros, afinal. E isso ocorre sem problemas, sem que o aluno seja “menos” que ninguém, sem o peso de uma “nota baixa”. É dada orientação, para que o aprendizado seja consistente e persistente. 

Se, em determinado período, algum conteúdo proposto não foi estudado, não há problema, é só retomá-lo no período seguinte! Afinal, quem nunca abraçou mais do que conseguia fazer ou não deu conta do recado por algum problema pessoal? Acontece! Há tempo para se aprender. Não havendo a separação por séries nem bimestres, o aluno tem todos os anos da Educação Básica para aprender todo o conteúdo. Sem estresse, sem cobranças, sem massacre. 

Cada aluno tem seu plano de estudo individual, e avança de acordo com seu ritmo, com sua condição, podendo, até mesmo, ir mais rápido em uma do que em outra disciplina. Qual o problema disso? O importante será que ele, ao final da Educação Básica, antes de receber um diploma ou certificado de conclusão, tenha estudado todo o conteúdo determinado. E se ele terminar os conteúdos antes do tempo determinado pelo MEC? É possível, não? Não há problema! Ele pode aprofundar os temas que mais lhe agradarem, ou pode se dedicar a algum tipo de pesquisa, ou mesmo aprender algo novo, que não estava previsto inicialmente. Simples!

Os conflitos, quando acontecem, são tratados pelos próprios alunos, sob supervisão dos professores, caso seja necessário. Aliás, é comum nestas escolas as regras e eventuais punições serem estabelecidas pelos próprios alunos, através de debates, votações, de forma democrática. 

Nestas escolas, além da forma de ensino completamente diferente, além das avaliações formativas, além de se estimular a pesquisa, e até a liberdade dos alunos estudarem onde preferirem, também são comumente em período integral, permitindo que os alunos aprendam artes, esportes, música, e evitando a existência das “temidas” lições de casa, pois existe tempo de sobra para o estudo na escola. 

Não é que os pais serão menos participativos, se lhes for tirada essa “função”, ao contrário. Mas existem outras formas de se atuar junto à escola, sem precisar do estresse das lições de casa, ou dos estudos às vésperas das provas! Em diversas escolas, por exemplo, os pais são convidados a fazerem oficinas para ensinar algo aos alunos. E aí não importa o grau de conhecimento de cada um, todos têm valor. Um engenheiro pode montar um laboratório de óptica, por exemplo, enquanto um marceneiro pode ensinar a criar móveis! Todo conhecimento é bem-vindo.

Os alunos passam a QUERER aprender, pois são desafiados a cada momento. Eles têm a responsabilidade de cumprir seus planos de estudo, não vai “cair do céu” nem vai ter de quem “colar” para conseguir uma boa nota (até porquê nem existe nota!). E, muitas vezes, a curiosidade sendo instigada, acabam indo além do que lhes foi proposto, querendo saber mais. 

É fácil chegar a esse ponto? Claro que não. Toda mudança requer planejamento, vontade, e até coragem para ser concretizada! Não existe mágica, não há como apontar uma varinha de condão e pronto! Tudo mudado! Não é assim... leva tempo, mas é preciso QUERER mudar e dar o primeiro passo! 

As mudanças necessárias para uma Educação para a autonomia requerem muito diálogo, pois esta é uma proposta radicalmente diferente do que existe hoje. Os alunos estranham, a princípio, tanta liberdade de ação. Os pais se sentem perdidos, ao não poderem cobrar notas dos filhos. Os professores custam um pouco a perceber sua mudança de função, de transmissor para orientador. Mas é possível. Temos vários exemplos disso, dando certo mesmo com alunos considerados “difíceis”, recusados em outras escolas. 

E, quanto mais eu vejo a situação das escolas hoje, quanto mais ouço e leio relatos de professores, e quanto mais eu vejo estes exemplos, mais eu creio na necessidade de mudança. É tão mais lógico, é tão mais inclusivo, é tão mais tranquilo aprender desta forma... Não sei se chegarei a ver acontecer, mas gostaria muito disso, de verdade!

A todos os professores, um feliz dia! 

Eu volto!

Andréa

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Inclusão e EJA


Em fevereiro comecei, como muitos sabem, a lecionar à noite, em uma sala de jovens e adultos. Não é uma sala de ensino regular, mas um projeto da prefeitura aqui de Itatiba, que reúne alunos que já estão na escola há vários anos e continuam com imensas dificuldades de aprendizagem. Teoricamente, é uma sala que tem alunos de 1ª a 8ª série mas que, em verdade, tem alunos com dificuldades graves na alfabetização e na matemática mais básica. Ou seja, alunos que passaram anos tentando aprender, "passando de ano", mas sem aprender de fato. :/ Uma sala pequena, poucos alunos, mas que têm uma necessidade imensa de aprender e avançar.

Impossível não traçar um paralelo com os relatos que vejo do processo de aprendizagem das crianças com deficiência. Que ficam em sala de aula e não aprendem, ou por não serem desafiados como deveriam, ou por não terem um olhar diferenciado do professor, ou por que motivo for. Essa sala em que estou lecionando me remete às chamadas "salas especiais", onde os alunos com deficiência são separados dos demais, para "não atrapalhar" ou porque "não vão conseguir mesmo, deixa ali". :'(

Confesso que para mim foi um desafio imenso! Ainda mais se pensar que, apesar de sempre ter me envolvido com a Educação de uma ou outra forma, apesar de ter me formado pedagoga há alguns anos, nunca havia trabalhado em sala de aula, salvo em uma escola de informática. Para piorar, entre a atribuição e o início das aulas tive apenas um final de semana e nenhuma orientação concreta, sequer uma pista de quem eram os alunos e o que eles já haviam estudado. o.O É verdade... não havia um histórico, um portfólio, anotações, material, o que fosse, para eu me basear.

Mas não temo desafios. Encaro e vou em frente. Não seria eu brasileira, ariana, e ainda filha de dona Solange e seu Ronaldo, se fosse diferente! :D E assim fui eu para o primeiro dia, conhecer meus alunos e procurar perceber o que cada um deles sabia para tentar encontrar um ponto de partida e ajudá-los a evoluir em seu aprendizado. Hoje posso dizer que conheço cada um deles, e sei o que cada um domina melhor ou encontra maior dificuldade. Desta forma, posso tentar auxiliá-los a superar esses "pontos fracos", e a valorizar seus "pontos fortes" também. Posso dizer também o quanto é prazeroso ver cada passo dado, cada conquista, cada avanço. Eles são capazes, claro que são! Mas precisam de alguém que se importe, que acredite no potencial deles, e que queira, de fato, vê-los avançar! ;) Alguma semelhança com as questões ligadas à inclusão???

No início eu precisei usar de criatividade para ganhar a confiança deles e mostrar que sabem, na verdade, muito mais do que imaginam. Começamos revendo todas as "famílias" do alfabeto. Eu propunha uma e eles iam à lousa escrever as palavras que conhecessem. Claro que, por diversas vezes, grafavam de forma errada. Mas aí eu falava a palavra novamente, sílaba por sílaba, e eles mesmos iam chegando à escrita correta. Foi ótimo, porque mesmo os mais "fechados" começaram a se soltar e a tentar. :D Quando terminamos essa revisão, e me dei conta que tínhamos mais de 800 palavras, propus o preparo deste caderno da foto. É uma espécie de glossário, para que possam usar como fonte de consulta quando têm dúvida sobre a grafia de alguma palavra. Tem sido bem bacana, e a cada aula nós ampliamos ainda mais o seu conteúdo! ;)

Mas o que mais me chamou a atenção desde o princípio, entretanto, foi a baixa autoestima de todos ali. Como se sentem menos do que os outros por não dominarem a escrita, a leitura e a matemática! Entre uma explicação e outra, entre uma atividade e outra, é importante falar, motivar, compartilhar experiências. Mostrar que, se eu domino a leitura e a escrita, eles dominam assuntos que para mim são verdadeiros mistérios. Mostrar que, por mais que se domine um assunto, nunca se sabe TUDO, sempre há o que aprender, sempre se está sujeito a erros. Mostrar que cada um tem um talento, uma facilidade. E que cada um tem mais dificuldade em alguma coisa também. Mais do que isso, mostrar que cada saber é importante. Ninguém é melhor do que ninguém. Somos, apenas, diferentes. ;) Ops! Reconheceu aí algo que deveria acontecer no ensino regular? Pois é... :)

Não é fácil, longe disso. Ainda mais porque, no caso dos adultos, eles trazem um histórico de depreciações, seja de casa, seja da escola, seja do trabalho, do círculo de amigos, que torna tudo mais complicado. Uma de minhas alunas ouve, da própria filha (que está na faculdade) que "é burra, não dá para entender porque perde tempo indo à escola, não vai aprender mesmo"! o.O Desfazer isso é difícil, e se a pessoa não acredita em si mesma, como pode caminhar? Cada coisa que você pede se torna um peso imenso, porque ela tem certeza absoluta de sua incapacidade! Mostrar que ela pode, que ela consegue, é um desafio. Mas um desafio recompensador, podem ter certeza! :D

É preciso fazer com que eles entendam que eles não são "burros" ou incapazes. Apenas não têm mais o cérebro "fresco" e pronto a aprender de uma criança. Existem conceitos arraigados, existem aprendizados errados (na fala, principalmente, que se reflete na escrita), existe a baixa autoestima para complicar. O esforço demandado é maior. Muito maior. Mas nem por isso é algo impossível de ser alcançado. Nem por isso é um sonho irreal. E o prazer por cada etapa alcançada é, certamente, muito maior! ;)

Procuro, todos os dias, reafirmar aos meus alunos o quanto eu confio na capacidade deles, e como fico feliz com cada passo que eles dão. Cada resposta certa é valorizada, comemorada. Cada linha lida, mesmo que tropegamente, é aplaudida. Cada frase escrita, mesmo que com erros de ortografia, é elogiada. Valeu o esforço! E o erro, quando acontece, é sanado da forma mais natural possível, explicando novamente, relembrando o que foi visto, tentando fazer com que eles próprios reconheçam e façam a correção. Tem dado certo. :)

Hoje, a adição e a subtração já não são um "bicho de sete cabeças" (ok... talvez tenha umas quatro cabeças ainda... :P), a escrita já não é um "bicho papão", a leitura não é mais um "monstro"... aos poucos eles vão caminhando. Restam três bimestres ainda para que eu possa ajudá-los. O trabalho está só começando!!! :D Mas eu tenho muita confiança de que chegarão ao final do ano bem mais preparados do que estavam em fevereiro. Espero estar certa! ;)

Estou satisfeita com o que tenho acompanhado de meus alunos. Mas, mais do que isso, percebo que apesar da realidade dos adultos ter diferenças óbvias da realidade das crianças, há posturas exigidas do professor, que se assemelham em todas as etapas. Coisas que venho falando há tempos, e que a prática só vem reforçando. É preciso enxergar a heterogeneidade existente na sala de aula. É preciso procurar ter um olhar diferenciado para cada aluno, mesmo em meio a uma sala mais cheia. É preciso valorizar os acertos e conquistas, ao invés dos erros. É preciso mostrar confiança na capacidade dos alunos e, desta forma, também trabalhar a autoestima de cada um. É preciso mudar a forma de avaliar, porque depender de provas, notas, é excludente. É preciso dar maior atenção àquele aluno que tem dificuldade, ao invés de deixá-lo de lado, entregue à própria sorte, como se tentar ensinar a ele não "valesse a pena". Até porquê, sempre vale. Talvez até mais. ;)

Não nego as dificuldades enfrentadas pelos professores do ensino regular, com salas superlotadas e poucos recursos. Tenho visto diariamente, meus colegas que lecionam no EJA regular, lutando para superar os desafios e as dificuldades. Mas, exatamente por isso, tudo que venho vivenciando tem me dado, cada vez mais, confiança de que este nosso sistema está ultrapassado, precisando ser revisto, renovado, transformado. Por uma Educação de melhor qualidade, por uma Educação de verdade, por uma Educação que contemple a todos. 

Eu volto.

Andréa

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Novidades, explicações, atualizações

Olá a todos!!! Estou sumida, né? Esse ano está complicado mesmo manter um ritmo como eu queria! Neste último mês foram muitas novidades, e a primeira delas já explica o porquê de ter complicado tudo... 


Sim! Consegui finalmente começar a lecionar!!! :D É uma turma que tem desde jovens de 18 anos até senhoras de mais idade. Alunos que já estão na escola há alguns anos, sem grandes progressos. Alunos que precisam desenvolver alfabetização, as quatro operações, enfim... tudo! Do início! Um grande desafio, principalmente porque cada um está em um ponto diferente. É uma sala multisseriada, alguns mais avançados, outros mais atrasados, então é um trabalho quase que individual com uma turma de (efetivamente) cerca de 12 alunos. E o que estou achando disso? Oras, estou simplesmente AMANDO! Cada passo dado, cada conquista, é muito gratificante! Tenho confiança de que cada um ali vai chegar ao final do ano com uma evolução muito grande! ;)

E semana passada resolvemos dar um passo importante em nossas vidas...



Sim! Compramos um carro! Parcelado a perder de vista, claaaaaaaaaaro... mas a verdade é que um carro era algo que já nos fazia muita falta, Itatiba é diferente de Serra Negra, tudo depende de condução e os ônibus têm horários restritos. E agora, com a proximidade da chegada do Gregório, eu me afligia de imaginar como seria se precisássemos sair de urgência. No Carnaval, por exemplo, Thabata teve umas dores e precisou ir à Santa Casa à noite. Não havia ônibus mais, eu estava sem dinheiro em casa, não achava um táxi que aceitava cartão, podíamos pedir uma ambulância para ir, mas e para voltar? Precisei apelar para o vigia da rua que a levou de moto e depois foi buscá-la. Eu nem pude ir junto. Que jeito? :(

Aí Samara começou as aulas, mudaram horários, e a van não conseguia atender como ela precisava. Para piorar, a faculdade é muito fora de mão, são quatro ônibus de casa até lá. Então resolvemos pesquisar, um mais velhinho mesmo, que tivesse uma parcela próxima do que já pagávamos da van. Acabamos conseguindo um Celta, e acho que fizemos um bom negócio. Vai nos dar flexibilidade e tranquilidade com relação a qualquer eventual emergência.

E essa semana Thabata foi espiar como seu Gregório anda lá dentro da barriga... :P a ultrassonografia hoje é impressionante, perfeita demais! Olha só como ele já está formadinho!


Maio está encostado aí já! Será que ele vai desbancar mais esse "tabu" aqui em casa? Era uma família que só nascia menina e essa regra ele já ignorou... depois, todas as que foram previstas para maio (eu, Samara e Thabata) nascemos em abril... :D será que ele espera quietinho até maio??? Daqui a pouco saberemos! ;) Aguardem os próximos capítulos! ;)

O chá de bebê virtual está caminhando bem! Foi uma ideia muito bacana, já que temos muitos familiares e amigos morando longe. Ah, não sabia disso ainda??? Pois é, existem lojas que você pode preparar listas de presentes para chá de bebê (ou de fraldas, ou de aniversário) para que as pessoas que estão mais distantes possam participar! Basta comprar o que quiser na loja, e a entrega é feita diretamente para o presenteado! Ideal para aqueles, como nós, que moramos longe de todos! A lista do Gregório está aqui! ;)

Então é isso! Sumi não, só estou atarefadíssima (ainda mais) com essa rotina dobrada! Saio pela manhã e volto quase 23h para casa, feliz, mas mais acabada do que outra coisa! :D Não vou abandonar esse cantinho, apenas o ritmo vai precisar ser mais "light" que ano passado!

Eu volto!

Andréa


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Respeitar a linguagem é respeitar o outro


Estou prometendo este texto há tempos... se eu fosse escritora estaria (mais) falida! Vejo e revejo os textos tantas vezes, corrijo, altero, mudo... é um processo longo até eu achar (mesmo sem ter muita certeza) que está bom e decidir publicar. :D Insegura? Exigente demais? Um pouco de cada, talvez... :P

Comecei a escrever este texto por causa de comentários que me incomodam profundamente, vindos de pessoas amigas até (e não são por maldade, apenas costume) sobre seus filhos com deficiência. Muitas vezes estas mães se referem a si mesmas como "mães especiais". Não duvido que o sejam, mas acredito sinceramente que todas as mães que amam seus filhos (com ou sem deficiência) e que batalham por eles, por seus direitos, são especiais. A missão de cada uma (de cada um) é única, cheia de percalços, não é o fato de ter um filho com deficiência que vai fazer ninguém melhor que o outro, e sim as atitudes perante a vida, as dificuldades, as possibilidades. ;) 

Afinal, uma mãe solteira, que cria sozinha seus filhos (ainda que não tenham deficiência), não é também especial? Uma mãe que batalha para tirar seu filho das drogas ou das más companhias (e não se iludam, ninguém está livre disso) não é também especial? Uma mãe analfabeta, que luta para ver seu filho formado, não é também especial? Uma mãe que tem um filho com bronquite, diabetes, cardiopatia, câncer, que tem que lutar pela saúde de seu filho diariamente, não é também especial?

Mas o que me incomoda, de verdade, é quando as mães se referem aos seus filhos com deficiência como "meu filho especial"... porque invariavelmente me lembro do questionamento do filho de uma amiga, ao vê-la falar desta forma de seu irmãozinho: "mãe, por que só ele é especial? Eu não sou?" O que se responde a uma criança nessa situação? Todo filho é especial, sejam quais forem suas necessidades, poxa! :( Imagina como se sentem os irmãos dessas crianças... uma criança, independente da sua condição física ou genética, é uma criança e é assim que deve ser tratada. Diferenciar as crianças com deficiência das demais só aumentará o preconceito e a discriminação. Afinal, se os próprios pais a distanciam, como podem pretender que os outros olhem para ela sem piedade?

Entenda: não estou falando de ignorar a deficiência ou as diferenças que ela traz, mas de se tratar a criança com deficiência da forma mais comum quanto for possível dadas as suas condições. De permitir que ela viva com as outras da forma mais natural possível, que conviva, brinque, corra riscos. Que ela seja exigida para que possa se superar (como qualquer um, aliás). Que ela seja desafiada. Que não fique encarcerada numa redoma de vidro como um ser estranho que deve ser admirado de longe. A deficiência jamais deve vir à frente da pessoa. O indivíduo é o mais importante, não a sua deficiência! Como diz meu amigo Fábio Adiron, "a inclusão começa em casa"! Pense nisso! ;)

E já que comecei a tocar no assunto "linguagem", não há como não esbarrar no tal do "politicamente correto" que é tão atacado hoje em dia. É claro que tudo que é exagerado perde o sentido, mas na verdade o que se espera é que as pessoas sejam tratadas com respeito, independente de suas características. E vale para tudo! A pessoa que usa óculos não é "quatro-olhos", a que está acima do peso não é "balofa", a que está abaixo do peso não é "varapau". ;)

Não há problema em falar que uma pessoa é negra, mas se começar com "escurinho", "pessoa de cor", ou termos ainda mais chulos que vemos diariamente, a coisa muda de figura. Pense: por que as pessoas dizem "bonito aquele rapaz negro" ao invés de "bonito aquele rapaz"? Alguém diz "bonito aquele rapaz BRANCO"??? Então por que é preciso destacar a etnia quando a pessoa em questão é negra? :/

Se uma pessoa é gay, este é o termo correto, podendo até ser homo, bi, transexual, mas não "boiola", "sapatão", ou outros termos ainda piores. Se a pessoa é cega, pode-se usar este termo normalmente, assim como "deficiente visual", mas não é "ceguinha", né? O surdo, ou deficiente auditivo, não é "surdo-mudo", pode apenas não ser oralizado por ter nascido surdo e não ter desenvolvido a oralidade. A pessoa com deficiência física, que pode ser identificada (se for o caso e não apenas como um rótulo) como cadeirante, não é "aleijada". Não se usa mais, sequer, o termo "portador de deficiência". Quem porta algo pode deixar esse algo em qualquer lugar, e isso não ocorre com a deficiência. Portanto, o correto é dizer que a pessoa TEM deficiência. Simples assim. ;)

Percebe que não precisa um esforço tão gigantesco, que basta respeitar o outro? Entrando em um campo um pouco mais nebuloso, o da deficiência intelectual (e não mais mental, para não confundir com as doenças mentais que são totalmente diferentes), encontramos uma série de termos pejorativos que são usados comumente pelas pessoas como forma de depreciar o outro, ou (o que é pior) como xingamentos mesmo. É o caso de "mongoloide" e "retardado"...

Há muitos anos, as pessoas com síndrome de Down eram chamadas "mongoloides" devido à semelhança de suas características físicas com as das pessoas nascidas na Mongólia. Era o termo que constava na ficha do homeopata de minha mãe (comentei a respeito aqui) e, mesmo, no grupo espiritualista onde comecei meu contato com estas pessoas. Só que o termo passou a ser usado de forma muito depreciativa, como adjetivo para pessoas incapazes. Não à toa, as próprias pessoas com Down não o aceitam mais, e continuar a utilizá-lo é forma grave de ofensa a todas elas, mesmo que o termo seja direcionado a uma pessoa sem Down. 

Só para terem uma ideia da extensão disso, há alguns anos um apresentador da MTV, no programa de maior audiência da emissora, "brincou" com um colega chamando-o de "mongoloide". A reação foi imediata! Os jovens com Down que assistiam à MTV ficaram indignados, e com razão! A MTV recebeu uma enxurrada de mensagens de repúdio, dos jovens, dos pais, dos grupos de apoio, e acabou gravando pequenos esquetes com jovens com Down falando dos mais diversos assuntos (profissão, política, hobbies, etc.) para exibir ao longo de sua programação, como forma de se retratar.

Com relação ao "retardado", que as pessoas usam como se fosse água, e que afeta não só às pessoas com Down mas a todos aqueles que têm algum tipo de deficiência intelectual, a coisa é tão séria que existe todo um movimento para banir de vez por todas a "palavra com R". Dê uma espiada aqui. ;)

Ou seja, antes de considerar o "politicamente correto" mera chatice, pense se você gostaria de ser chamado daquela forma ou se iria se sentir ofendido. Antes de fazer uma piada, veja se ela é realmente engraçada ou se apenas está disseminando alguma forma de preconceito. Antes de colocar um apelido em alguém, veja se ela vai curtir, se vai achar carinhoso ou engraçado, ou se vai se aborrecer com ele. CLARO que todos cometemos erros, mas se nos mantivermos alertas, cada vez isso acontecerá com menos frequência! Será que é pedir demais? Será que existe alguém tão perfeito assim, que seja capaz de escapar incólume de toda forma de depreciação, de falta de respeito?

"Quem de nós é um ser humano exemplar, quem de nós não tem espelho pra se olhar, quem de nós é capaz de atirar a primeira pedra sem se machucar?" (Álvaro Socci/Claudio Matta)

Só para terminar, esqueça um pouco o termo "normal". Afinal, o que é ser "normal"? Qual o parâmetro? Quem pode decidir isso? Então use, sem medo de errar, "comum", "regular", "típico" e, no caso de pessoas, "sem deficiência" basta como definição.

Prestar atenção na linguagem é respeitar o outro, é tratar o outro como queremos ser tratados. É perceber que ninguém é melhor que ninguém. É olhar o outro com olhos de amor e de igualdade, e não de crítica ou superioridade. Não é difícil, basta prestar um pouquinho de atenção. Vamos tentar? ;)

Eu volto.

Andrea
(e não se esqueçam da campanha do Passo a Passo! Eles precisam MUITO da sua ajuda!)

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Cadê a inclusão???


Vamos chamar a faxineira, que esse espaço aqui está mega abandonado? :D Desculpem, mas ando numa fase tão corrida que não tenho conseguido tempo/inspiração para nada! Não é por falta de assunto não, porque isso tem de sobra, mas tempo mesmo, cabeça para colocar as ideias fluírem. Só que hoje acordei com o vídeo de um desabafo, que me fez PRECISAR escrever! É o desabafo de uma mãe (Silvia Quintan) que quer, apenas, poder oferecer Educação de qualidade para sua filha com deficiência. Assistam:



Este vídeo é tocante e, ao mesmo tempo, revoltante. :\ Não é o único caso, longe disso! São muitas, muitas, muitas crianças com deficiência que têm suas vagas negadas diariamente em escolas regulares. Escolas que não querem ter trabalho, que querem robôs no lugar de alunos, crianças que fiquem quietinhas, sentadas em suas carteiras, ouvindo passivamente seus professores, sem questionar (e sem pensar, provavelmente). Qualquer comportamento fora do esperado torna-se um problema e a criança já não é bem-vinda ali. Não à toa, meu amigo Fabio Adiron comenta que o verbo mais conjugado nas escolas é o "encaminhar": encaminha para a psicóloga, para o neuro, para a fono, para a psicopedagoga... qualquer coisa, mas tira este problema de minha frente! :'( Eu conheço de perto essa realidade pois, ainda que não tenha nenhuma deficiência, fui uma garota extremamente tímida, não fazia amizades facilmente, então era considerada "aluna-problema" pela escola!

Acham que estou exagerando? Então deem uma lida no documento divulgado pelo SINEPE/SC (Sindicato das Escolas Particulares de Santa Catarina):

Srs. Pais e Responsáveis , Paz e Bem!SINEPE/SCSINDICATO DAS ESCOLAS PARTICULARES DE SANTA CATARINACARTA ABERTA À COMUNIDADE ESCOLARO QUE É PRECISO SABER SOBRE EDUCAÇÃO INCLUSIVA ESTATUTO DO DEFICIENTERECENTEMENTE SANCIONADA, A LEI13.146/2015, PUBLICADA NO DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO DE 7 DE JULHO PASSADO, INSTITUIU A LEI BRASILEIRA DE INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA (ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA).O ASSUNTO É COMPLEXO. NÃO PODE SER TRATADO SUPERFICIALMENTE E COM SENSACIONALISMO, COMO VEM OCORRENDO.
O QUE É PRECISO SABER
As soluções seriam muito mais simples se as deficiências fossem apenas de natureza física, uma questão de engenharia e de “layout” de mobiliário, de prédio ou de próteses. A maior nação do mundo teve um presidente cadeirante e a Inglaterra, um rei gago. Só de outros transtornos e síndromes - com natureza, grau e profundidade diferentes, próprios e individuais - arrolam-se mais de cinco mil. O portador de necessidade especial precisa de educação, tratamento e acompanhamento também especiais, por instituições capazes de proporcioná-los com sucesso e não charlatanismo.
Causa-nos estranheza um país que não reconhece, não contempla e não premia os valorosos serviços que, abnegadamente, por anos, vêm sendo prestados pelas APAES e outras instituições altamente especializadas.
Quem nasceu e mora em Santa Catarina conhece de perto – através de familiares, amigos e colegas portadores – os resultados positivos, alguns verdadeiros milagres, obtidos através das Associações de Pais e Amigos de Excepcionais, pelo Instituto Diomício Freitas, em Criciúma, Abludef e Abada, em Blumenau, AMA de Joinville, CAPP em Chapecó, Coepad, Iatel, ACIC e Aflodef, todos em Florianópolis, além da Orionópolis, em São José.
Essas instituições não se limitam apenas a atender os deficientes físicos, mas estendem esse trabalho aos portadores dos mais diversos transtornos. A nosso ver, melhor se faria reconhecendo o trabalho de tais entidades, privilegiando-as, amparando-as, fortalecendo-as e lhes dando recursos suficientes. Poderiam ser mesmo suporte especializado para trabalho conjunto com famílias e com as escolas comuns, não apetrechadas, não preparadas suficientemente para atender os portadores de necessidades especiais, conseguindo-se real, verdadeira e efetiva inclusão social. Seriam um núcleo especializado à disposição de todos. Os poderes públicos têm condição de transformá-los em verdadeiros centros de atendimento altamente qualificados e especializados. Impostos, aliás, não faltam!
Algumas perguntas inquietantes podem levar a uma visão mais equilibrada e holística do melhor atendimento e inclusão dos portadores de necessidades especiais. Apenas, como exemplos, é possível formular algumas, capazes de provocar uma avaliação mais atenta da situação. Como uma escola comum, competente para cumprir com a missão para a qual foi criada, mas não equipada e sem pessoal especializado, pode agir diante de um adolescente com 13 ou 14 anos, ainda não alfabetizado, que, por sua própria condição e idade, se isola dos demais ou por eles é isolado? Será que, a título de inclusão social:
a) alguém pode ser ministro do S.T.F. sem preencher os requisitos previstos no artigo 101 da Constituição da República?b) há condições de um autista ou alguém com idade mental reduzida e psicológica ser Presidente da República?c) é possível a um cego ser cirurgião ou piloto de avião?d) para um cardiopata ou vítima de câncer é suficiente o tratamento por um clínico geral ou posto de saúde de primeiro atendimento? Ou seriam apenas os encaminhadores aos especialistas?e) alguém sem braços ou sem pernas poderia jogar basquete ou futebol (nas paraolimpíadas são classificados ou agrupados conforme o tipo e grau de deficiência)? Por que simplesmente não inseri-los nos meios e disputas dos atletas que não têm limitação?f) Uma clínica especializada em oftalmologia está obrigada também a atender patologias na área de cardiologia?g) O Serviço Militar (Marinha, Exército e Aeronáutica) está preparado para aceitar nas suas fileiras toda e qualquer pessoa portadora de deficiência? Aliás, eles aceitam?h) o que uma dessas escolas poderia fazer por um aluno que, em razão de atraso mental de idade, não se integra com os colegas, que têm interesses diferentes, porque estão em idade mais avançada?i) o que uma dessas escolas pode fazer por um aluno que, em razão de deficiência, abre a braguilha e expõe a genitália para as colegas ou agride os menores?j) que procedimento pode adotar a direção de uma escola comum quando uma jovem professora, aos prantos e ferida física e psicologicamente, anuncia que pede demissão e desiste da profissão, porque foi espremida com uma carteira contra a parede por um hiper-ativo, ao impedi-lo de agredir uma outra criança paraplégica, num de seus descontroles em que inopinadamente e sem motivos bate em todos os colegas?k) como proceder diante de um aluno que, sem capacidade de discernir, armado, ameaça agredir os colegas?l) há real inclusão social, carinho e amor ao deficiente, colocando-o numa escola comum, entre alunos comuns, simplesmente para satisfazer a um possível sentimento de culpa injustificável?m) pode, honestamente, uma escola comum certificar promoção, conclusão de nível ou grau de ensino, para quem foi impossível alcançar tal nível? Isso não seria uma enganação individual e coletiva? É bom lembrar que grande parte dessas escolas têm leigos como professores.
A resposta a essas e outras perguntas seria, a título de inclusão social, colocar à força tais pessoas e alunos juntamente com os diferentes deles, em escolas comuns, PÚBLICAS e PRIVADAS, sem estrutura e despreparadas.
Educação, ensino e preparação não se resumem a mera socialização e convivência. Pensar e agir assim seria apenas prejudicar os deficientes e seus familiares, prometendo-lhes uma inclusão que verdadeiramente não ocorrerá.
Nós não nos opomos à Lei 13.146/15, mas à pretensão de que milhares de escolas comuns, PÚBLICAS e PRIVADAS, que não se propuseram a ministrar educação especial por falta de competência para fazê-lo, tenham obrigatoriamente que atender com garantia de sucesso os deficientes, de qualquer natureza, grau, variação ou profundidade.
Será que, com bom senso, equilíbrio e visão realista, se pode ter mais consideração e respeito com o deficiente, para proporcionar-lhe o atendimento e tratamento que merece?
Será que é possível ao Estado transferir uma responsabilidade constitucional que lhe pertence aos ombros e orçamento de entidades privadas ou de seus demais alunos e pais?
São justos os custos adicionais para manter estrutura adequada e pessoal especializado para atender alunos portadores de necessidades especiais - recaírem sobre os custos e preços dos demais?
Não se inclui simplesmente colocando alguém no meio de uma maioria diferente, com que acabará não se interagindo e se integrando. O próprio portador da necessidade poderá se sentir isolado, podendo até reagir agressivamente.
Tudo se resume a uma questão de bom senso, equilíbrio, isenção e visão realista.
Registre-se que muitos dos apoiadores, mentores e autores da lei, que têm portadores de necessidades especiais em casa, se recusam a matriculá-los numa escola pública mesmo altamente especializada e capacitada ou em unidade da APAE. Será por preconceito, este, sim, a maior deficiência de uma pessoa?
Essas são algumas ponderações que ousamos propor para que sejam examinadas com isenção, com olhos e visão voltados equilibradamente para o bem-estar dos portadores de necessidades especiais. E, assim, com um bom debate sobre a matéria, contribuir para a sociedade.
Florianópolis, setembro de 2015.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO (CONFENEN)SINDICATO DAS ESCOLAS PARTICULARES DE SANTA CATARINA (SINEPE/SC)

Ficou com o estômago embrulhado? Eu fiquei. Preconceito extremo, para dizer o mínimo. Acabei me lembrando de conhecidos de meus pais que, ao tentarem matricular a filha adotiva na escola ouviram a pergunta: "mas ela não é de cor, é?" Eles obviamente viraram as costas e foram embora sem responder, afinal não era aquele o ambiente que pretendiam para a filha que, aliás, era branca. Mas porque seria preterida se fosse negra? :/

O preconceito é algo que me enoja, de verdade. Porque é cruel, é mesquinho. Quem tem preconceito se acha melhor que o outro, seja por que motivo for. Acha que tem mais direitos, que tem mais valor. Vale para tudo, para a cor da pele, para as características físicas (gordo, magro, com óculos), para o sexo (as mulheres que o digam), para as religiões, para as orientações sexuais, para as deficiências. E quando se trata destas, vemos uma crueldade ainda maior. :(

Sim, porque além de tudo que as pessoas com deficiência passam, de olhares, comentários, piadinhas, violências, que são comuns a todas as formas de preconceito, ainda existe a negação dos direitos mais básicos a estas pessoas, como os direitos civis, de mobilidade, e o direito à Educação! É sobre este, especificamente, que vou falar hoje, motivada pelo vídeo da Silvia e este texto absurdo do SINEPE.

Diz a nossa Constituição, em seu artigo 205: "Educação, direito de TODOS". Todos quem? Segundo o comunicado do SINEPE, que reflete a mentalidade de boa parte das escolas regulares, todos aqueles que "não incomodam" ou que possam ser considerados (sei lá de que forma) "aptos a aprender". Mas Constituição é a lei maior do país, e como tal deve ser respeitada. Não bastasse ela, temos diversos outros documentos que corroboram o que já deveria estar tão claro em seu texto, como a Declaração Universal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, da ONU (ratificada pelo Brasil em 2008 e com peso de Constituição Federal) e a recente Lei Brasileira da Inclusão, passando ainda pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96), apenas para citar alguns.


Falando em LDB, muitas escolas agarram-se a ela dizendo que o ensino de crianças com deficiência em escola regular não é obrigatório, apenas deve ser PREFERENCIALMENTE oferecido nesta rede. Mas alguém já analisou exatamente o que diz a LDB em seu artigo 4º, inciso 3º?

Atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino.

Ou seja, se formos interpretar corretamente, ela cita o atendimento educacional ESPECIALIZADO (voltado ao atendimento da criança com deficiência ou superdotação), não o ensino de português, matemática, ou coisa que o valha. Ela se refere (me parece bastante óbvio, no que diz respeito aos alunos com deficiência) à sala de recursos, ao reforço psicopedagógico, à tutoria, etc., que deveriam ser oferecidos preferencialmente na rede regular, até para facilitar e diminuir o desgaste.

Negar o acesso de alunos com deficiência à Educação regular, além de ferir diversas leis, como comentei acima, é extremamente CRUEL. Não há outra palavra que possa definir melhor. Afinal, determina que aquela criança, aquele jovem, não é bem-vindo no ambiente escolar. Não tem direito a conviver com os "ditos normais". Não tem direito de aprender junto aos demais. Ele incomoda. Ele tira os educadores da "zona de conforto", fazendo com que tenham que buscar soluções para ensinar estes "seres estranhos". É mais fácil recusar... ou, pior ainda, "fingir" que aceita e não fazer nada por aqueles alunos. E, neste caso, além de infringir as leis, ainda presta um desserviço, atrasando o aprendizado e o desenvolvimento dos alunos que não são levados em consideração, não são desafiados. São atitudes que devem ser denunciadas ao Ministério Público. Mesmo que se opte por outra escola, a denúncia precisa ser feita, para que as escolas vejam que não estão acima da lei. É preciso coibir o preconceito, a discriminação.

Os casos mais sérios dizem respeito aos alunos com deficiência intelectual. As deficiências física, auditiva, visual, ainda são um pouco mais aceitas, mas a deficiência intelectual complica. Os alunos com deficiência intelectual têm ritmo de aprendizagem diferente dos demais, precisam por vezes de adaptação dos materiais utilizados, precisam de uma explicação um pouco diferenciada, precisam de uma dedicação mais individualizada. Nem vou entrar aqui na questão de que todos os alunos podem ter essa necessidade em um ou outro momento, ou que esse formato tradicional de Educação precisa ser modificado para atender melhor a todos, como já comentei em textos anteriores. Vou focar apenas no fato de que os alunos com deficiência intelectual podem aprender (e aprendem). Podem seguir nos estudos. Basta que tenham estímulo, oportunidade, que sejam desafiados como os demais. Até onde chegarão? Quem sabe? Quem pode determinar até onde vai o outro? Cada indivíduo é único! Quantos jovens sem nenhuma deficiência largam os estudos pelo caminho ou optam por não cursar uma faculdade por motivos diversos? Agora, se o aluno chega na sala e o professor já olha para ele como alguém que não vai aprender, como será capaz de ensiná-lo? Para ensinar é preciso, primeiro, acreditar no potencial do aluno! Aliás, não cabe na minha cabeça um professor que se recusa a ensinar quem quer que seja! Se recusa a TENTAR, se recusa a buscar uma forma daquele aluno aprender! Como pode isso? o.O

Ter uma especialização para lidar com crianças com deficiência é interessante, óbvio, mas não imprescindível. Até porquê a quantidade de síndromes existentes, jamais permitirá que tenhamos especialistas para tudo, e mesmo que isso fosse possível, cada indivíduo é único. Cada criança com Down aprende de uma forma, cada criança com autismo aprende de uma forma, cada criança sem deficiência aprende de uma forma. ;) É preciso, acima de tudo, vontade, disposição, empenho. 

Não se pode mais nem dizer que é falta de informação, porque hoje isso não existe, ainda mais com a popularização da internet. Pode existir falta de interesse em conhecer, mas a informação existe e está ao alcance de todos. Recentemente mesmo tivemos a série do dr. Drauzio Varella no Fantástico, falando sobre a síndrome de Down (os links estão no menu à direita). Um programa que foi muito positivo em diversos aspectos, que valorizou as capacidades dos indivíduos com Down, mostrando que eles podem, sim, ir bastante longe. Afinal, se aquelas pessoas mostradas na tv, ainda que nascidas em gerações que tinham menos informação e onde o preconceito era ainda maior, conseguiram, o que dirá das que estão crescendo agora, com ainda mais recursos? CLARO, o programa deixou algumas brechas, não agradou a todos, porque muitos pais acharam que foi brando demais, não exibindo as dificuldades por eles enfrentadas. Mas era um programa para o grande público, para derrubar preconceitos, e eu acredito que cumpriu seu papel, da mesma forma que a série sobre autismo no ano passado (coloquei os links à direita também). No caso dos professores, existem diversos blogs, sites, com atividades adaptadas. Sem contar uma revista bimestral chamada "Mundo da Inclusão", que é excelente!

A recusa das matrículas ainda causa outro problema, pois os alunos com deficiência, em especial a intelectual, têm ainda a dificuldade da socialização. Devido ao déficit intelectual, a diferença destes para as crianças que não têm deficiência tende a ser ampliada com o passar dos anos. E como as crianças "ditas normais" não são educadas para a aceitação, o respeito e a inclusão do "diferente", não são sequer habituadas a conviver com crianças com deficiência, conforme crescem passam a excluir cada vez mais. A não convidar para festinhas, para idas ao shopping, a deixar aqueles alunos isolados no recreio... :( e, no entanto, se a convivência fosse estimulada desde sempre, em todos os ambientes, certamente esta exclusão seria bastante reduzida.

Difícil reverter essa situação? Nem tanto, mas precisa que as pessoas mudem suas atitudes, e isso leva tempo. Basta que as pessoas passem a ter respeito pelo seu próximo, passem a aceitar a diversidade. O que falta, na verdade, é tolerância, é pensar no outro e não só em si. Falta é AMOR AO PRÓXIMO. Aliás, esta é uma constatação que tenho feito em muitos aspectos no dia-a-dia, infelizmente.

Eu volto. (espero que logo...)

Andréa


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A necessidade de mudança na Educação

No início do ano, após a divulgação do resultado do Enem/2014, escrevi um post falando sobre a questão do ensino em nosso país. E, a cada dia que passa, mais tenho a certeza de que é urgente promover uma mudança global na estrutura existente. Não é tarefa simples, longe disso, mas extremamente necessária.

De um lado, encontramos as queixas dos professores, que além da má remuneração ainda aguentam a falta de educação dos alunos, cada vez mais mimados, desacostumados a ouvir “nãos”, ou desatentos, mais interessados nos celulares do que nas aulas. :/ Pior: encontramos os relatos assustadores dos mestres acuados em sala de aula, vítimas de agressões por parte de alunos e, até mesmo, pais de alunos, que cobram atitudes condescendentes, notas boas nos boletins, ainda que sem merecimento.

De outro lado, encontramos as queixas dos pais, por uma escola “como antigamente”, onde os alunos eram alfabetizados de forma consistente, sabiam a tabuada “de cor e salteado”, onde havia interesse por parte dos professores em se aprimorar e ensinar, de fato, os alunos, não apenas “passar matéria”. Os pais clamam por uma escola que aceite todo e qualquer aluno e que os desafie de fato, mas respeitando seu ritmo de aprendizado. Inclusão, sabem? Assim... de verdade? ;) Mas está difícil encontrar... Vemos pais sonhando com uma escola que trate os alunos como PESSOAS, antes de mais nada, que pensam, têm sentimentos, histórias, interesses próprios.

Encontramos, ainda (e talvez principalmente) alunos, muitas vezes desmotivados, desatentos, desinteressados no aprendizado como é transmitido hoje, levando a escola “na flauta”. Outros, claro, empenhados, preocupados com seu futuro, muitas vezes estressados em demonstrar seu potencial através das boas notas obtidas nas provas, literalmente “se provando” diariamente.

Sem contar os sistemas apostilados, verdadeira febre atualmente, que proporcionam a industrialização do que deveria ser artesanal: o aprendizado. Através destes sistemas, o ensino é dividido em unidades, que são tratadas muitas vezes em uma sequência onde não há preocupação com a ligação entre os temas. Acabou uma unidade? Passa­-se para a seguinte, como se a anterior não tivesse relevância mais. Aluno ficou doente, faltou, perdeu uma unidade? Problema dele e dos pais, estude em casa agora, o professor não tem nada a ver com isso. Não entendeu da forma que foi explicado? Ah, amigo... se esforçasse mais, né? A falha é sua, não do método ou do professor! Agora já foi, o assunto já mudou! CLARO que estou falando de forma generalizada, nem todos são assim. Mas vejo reclamações constantes, então não é tão raro também.

Onde está a razão? Em todos, eu diria. E suprir todas as queixas só será possível buscando uma real transformação da Educação. Como diz José Pacheco, estamos em pleno século XXI ensinando como se fazia no século XIX! Não pode dar certo!!! O mundo mudou radicalmente nestes anos todos, em todos os sentidos! Mas a escola não acompanhou estas mudanças... de que adianta termos hoje computadores nas escolas, lousas digitais, livros sendo substituídos por tablets, mas continuarmos querendo que os alunos fiquem enfileiradinhos ouvindo o professor e seguindo a sua orientação soberana? Não é à toa que eles buscam distração nos celulares, da mesma forma que a minha geração fazia com jogos de “stop”, velha, forca, ou troca de figurinhas! (Não que eu fizesse isso, claro... :P ) É muito chato aprender assim!!! :( E será que precisa ser chato? Aprender não pode ser prazeroso, divertido? Claro que pode! :D E sendo prazeroso aprende-se mais rápido e melhor, com toda a certeza!!!

A falha vem ocorrendo desde o princípio! A base dada aos pequenos precisa ser bem construída, para permitir o progresso contínuo e consistente dos educandos. O construtivismo, para a alfabetização, pode ser interessante e funcionar para algumas crianças, mas não para todas, isso está mais do que claro. O número de analfabetos funcionais é gigantesco, e se reflete no desempenho global dos estudantes! Sem ler e escrever de forma adequada, como podem aprender as outras disciplinas, pesquisar, se informar... como podem se expressar corretamente? :/ Há crianças, sim, que aprendem pelo construtivismo, mas há outras para quem o método fônico é mais eficiente ou, até mesmo, as “ultrapassadas” cartilhas! O importante é que aprendam a ler e escrever com fluência, sem erros, não importa o método!

A colocação de rótulos, como se a escola fosse obrigada a lançar mão de um método exclusivo, só atrapalha! É mais importante a escola dizer “aqui nós trabalhamos com o construtivismo” (e depois vermos crianças com 10, 11, 14 anos sem saber ler e escrever direito) ou “aqui todas as crianças são alfabetizadas pelo método que cada uma responder melhor” (e de fato todas serem alfabetizadas a contento)? A ausência do rótulo permite a flexibilidade da ação, permite mudar de caminho quando um não está funcionando como se esperava. ;)

Mesma coisa a tabuada! Ok, sou favorável que a criança entenda o processo, de que forma que aquelas tabelas são construídas Primeiro porque é importante desenvolver o raciocínio lógico das crianças e, até mesmo, porque se em algum momento ela não lembrar um resultado, saberá chegar a ele por outro caminho. Deixa de ser mera "decoreba". Mas a criança vai ter que, em algum momento, memorizar as benditas! Não tem jeito! É isso ou ficar escravo de calculadoras e “colas”... não dá! É chato? Até é, mas nem precisa ser... transformar a tal “decoreba” em algo lúdico não é tão complicado assim! ;) E é necessário, quanto antes as crianças forem estimuladas a isso, melhor para elas mesmas, vai facilitar em todo o aprendizado da matemática, da física...

Tenho ficado, cada vez mais, convencida de que a educação pautada na autonomia do aluno é o melhor caminho. Recentemente participei de um curso sobre a Escola da Ponte, e mais especificamente sobre o Projeto Âncora, no Brasil, que segue seus preceitos. É fascinante! E tão mais lógico, tão mais fácil...

(nessa foto o Samuel, filho do Fábio Adiron, faz uma apresentação na feira de Ciências da escola)

É o aluno como senhor de seu processo de aprendizado, tendo o professor como seu guia, mentor, instigador, oferecendo todo o suporte que for necessário. É proporcionar oportunidade para que o aluno vá em busca do conhecimento, em livros de diversos autores e métodos, revistas, internet, o que lhe trará um aprendizado muito mais consistente do que aquele adquirido numa aula expositiva. Ainda mais nos dias atuais, em que a informação está aí, ao alcance das mãos, nos celulares, tablets, computadores. Desafie o aluno e ele aprenderá, de fato, e não para “tirar nota na prova”, esquecendo tudo em seguida. Você nunca passou por isso? :/

Claro que a autonomia não é adquirida “da noite para o dia”, é ensinada também. Permitindo que as crianças saiam da "redoma de vidro", experimentem, tentem fazer as coisas. Com segurança, claro. Os pais ou os responsáveis devem estar sempre atentos e prontos a intervir caso necessário, principalmente com os pequenos. Até porquê, ser autônomo não significa fazer (ou aprender) sozinho, mas saber buscar as respostas, saber pesquisar, perguntar, experimentar e, até mesmo, pedir ajuda quando necessário, seja ao colega, aos pais, ou ao professor. Ser autônomo proporciona ao aluno maior independência, maior segurança, maior autoestima, maior confiança em si mesmo. E não é isso que os pais (deveriam querer) querem para os filhos? ;)

A Educação vem mudando no mundo. Cada vez é mais frequente lermos notícias de países abolindo notas, disciplinas, alterando a forma de ensinar. Além, claro, de experiências pontuais, como a Ponte, como o Projeto Âncora, e como diversas outras escolas aqui mesmo, no Brasil. :D Mas precisamos mais! Muito mais!!!

É claro que, mudando­-se a forma de ensinar, é essencial mudar também a forma de avaliar os alunos! Eliminar, de uma vez por todas, esse esquema falido de provas, notas, reprovações, e partir para a avaliação formativa, avaliando o aluno constantemente, a cada passo dado. :) Na Ponte, por exemplo, o aluno determina o momento de ser avaliado, quando se sente confortável com aquilo que estudou. Ele tem um plano quinzenal, com todos os tópicos que deve aprender naquele período e, quando está satisfeito com o seu aprendizado coloca seu nome e o tópico em questão numa tabela chamada “eu já sei”, para que o professor possa lhe avaliar. E se ele não responder a contento? Não há problema! O professor direcionará aquilo que não ficou bem claro, permitindo ao aluno preencher as lacunas e, quando o este entender que pode ser avaliado novamente, volta a colocar o nome na tabela. Simples, sem cobranças excessivas, sem estresse! ;) Ah, passaram-se os quinze dias e ele não deu conta de tudo? Tranquilo! O que ficou para trás vai para a próxima quinzena, há tempo suficiente! Vai dizer que você nunca precisou postergar uma meta porque abraçou coisa demais ao mesmo tempo? ;)

Quando fiz o curso, uma colocação chamou minha atenção por resumir a diferença entre essa “nova Educação” proposta pela Ponte, e a que praticamos: a Educação, como é praticada no Brasil (e em outros locais ainda) determina um tempo fixo para o aprendizado, permitindo disparates na qualidade do que é aprendido. O objetivo acaba se tornando o ano letivo em si, ao invés do aprendizado efetivo. Na Ponte, determina-­se que TODOS devem aprender TUDO, não importando o tempo que levam para isso. O objetivo é o aprendizado de excelência, e tempo é todo o período de duração do Ensino Fundamental. :D

Não havendo a divisão por séries, nem classes preestabelecidas, cada aluno vai aprendendo no seu ritmo, caminhando de acordo com as suas possibilidades. Pode avançar mais rápido em uma disciplina, ir mais devagar em outra, mas sabe que tem que cumprir o currículo estabelecido pelo governo. E, de modo geral, os nove anos “disponíveis” para o Ensino Fundamental mostram­-se mais do que suficientes para tal meta, possibilitando, inclusive, estudos à parte do currículo oficial! :)

Mesmo alunos com deficiência saem ganhando neste formato. Alunos com deficiência intelectual, já se sabe, podem avançar nos estudos se lhes forem dados tempo e oportunidade. Num formato como o proposto pela Ponte, além de tudo ganham a autonomia e a segurança tão necessárias para uma vida independente. :D Elimina-se, desta forma, as barreiras tão disseminadas nas escolas regulares: falta de preparo, necessidade de um tutor em tempo integral (salvo exceções, claro, em caso de limitações mais severas de mobilidade)... permite-se a inclusão escolar de fato, a Educação para todos, sem exceção, que é meu sonho e de muita gente! ;)

Outro detalhe importante, é que a Educação, na Ponte e em qualquer outro local onde exista a busca por excelência, ocorre em período integral, e não em turnos, como aqui. Deixa de existir, quase totalmente, a estressante “lição de casa”, tirando dos ombros dos pais a obrigação de “fazer a lição”com os filhos, “tomar a matéria” na véspera da prova para se certificar que estão preparados. Algo que é complicado muitas vezes, visto que os pais não têm o conhecimento necessário para ajudar aos filhos. Para casa só vão tarefas muito pontuais, como uma entrevista com os pais ou avós, uma pesquisa a ser realizada no bairro em que moram, etc. O restante é visto na escola, há tempo de sobra para isso! E tempo, ainda, para atividades de artes, música, esportes, etc. Escola em tempo integral para uma Educação Integral. Muito mais coerente, muito mais funcional. ;)

Mudar a cultura, a mentalidade das pessoas é complicado, claro. Mas é preciso mudar. Urgentemente. Pelo bem das nossas crianças, pelo bem das novas gerações deste país.

Para reflexão deixo aqui um vídeo. Deliciem­-se! :D


Eu volto.

Andrea

Só um adendo... depois de escrever, reescrever, escrever de novo este texto, descobri essa entrevista do José Pacheco à Revista Fórum e percebi colocações muito semelhantes. Mera coincidência? ;) Acho é que a "pupila" aqui tem aprendido direitinho a lição! :D

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