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Tempo, tempo, tempo...


Há alguns meses resolvi que voltaria a escrever. É algo que gosto demais de fazer, que me faz muito bem, inclusive. No entanto, após alguns poucos textos, parei novamente. E o motivo foi o cansaço extremo que tenho sentido com a intolerância vigente nos dias de hoje. Sério. Eu sei que nem vem exatamente de hoje, porque já toquei neste assunto algumas vezes, mas ao invés de melhorar vem piorando assustadoramente. E o mais grave, vindo de pessoas que quero muito bem, que conheço de longa data.
Durante as eleições de 2014, a política virou quase que uma partida de futebol entre times arquirrivais, onde os nervos inflamados tiraram completamente a razão das pessoas. Em vez demostrar as qualidades de seus candidatos, as pessoas apenas apontavam as falhas dos oponentes, sem se preocupar com a veracidade do que era divulgado. Amizades foram desfeitas, pessoas foram atacadas por não concordar com determinada opinião. Era como se apenas existissem dois caminhos: a favor do PT ou contra ele. Esperava-se que, passadas as eleições, os ânimos amainassem. Ledo engano...
Dilma venceu, e a guerra se intensificou ainda mais entre esquerda e direita. Foram quatro anos recheados de fake news onde a menor preocupação era com a verdade. O importante era atacar (ou defender) o PT, da forma mais incisiva possível. Com todos os escândalos que foram acontecendo neste período, impeachment de Dilma, prisão de Lula, os ataques (e a defesa do PT, em contrapartida) se multiplicaram, explodiram!
E então começaram a se aproximar as eleições de 2018 e, com elas, mais uma vez, a guerra entre esquerda e direita se acentuou. E, apesar de haver diversos candidatos em oposição ao governo que se encerrava, os eleitores "de direita" foram se concentrando no candidato mais extremista possível, aquele que destilava discursos de ódio, preconceito e intolerância nos mais diversos aspectos. Compreensível por um lado, assustador por outro, dia após dia o dito candidato foi crescendo nas pesquisas, como se não houvesse outra opção, chegando ao segundo turno contra o candidato do PT. E aí, acentuando ainda mais os extremismos, acabou por sair vitorioso.
Bom, pelo menos agora a "guerra" diminuiu, né? Qual nada! Apenas houve uma troca entre "situação" e "oposição", porque de resto... tudo continua igualzinho. Ou até pior! Porque durante o governo do PT (ou do Temer, após a queda da Dilma), as defesas e as críticas ocorriam, muitas vezes utilizando mentiras, mas era diferente de agora. Agora as pessoas que votaram no atual presidente parecem que precisam "provar" que fizeram a escolha certa, então defendem atitudes absurdas do novo governo (e, sim, são muitas), armando-se de argumentos os mais absurdos, utilizando-se dos mesmos componentes de intolerância, ódio, preconceito que o então candidato utilizava na eleição. Por outro lado, os esquerdistas vêm atacando estas mesmas atitudes com argumentos muitas vezes vazios ou que apenas defendem a liberdade de Lula. Continuamos vivendo em polaridades, como eu disse em um texto anterior.
Os dois lados, para embasar seus pontos de vista, disseminam fake news, como antes, sem o menor pudor. Pior, alguns nem se importam MESMO com o fato de estar divulgando mentiras! Sério! Estes dias alertei uma amiga sobre uma notícia de 2014 (!!!) que ela estava compartilhando como atual, e ela me respondeu "mas bem que podia ser de agora". Podia, não era, era justamente do governo petista que ela tentava atacar, bolas! Então, se ela estava aplaudindo a notícia como algo positivo, estava, ainda que indiretamente, elogiando algo ocorrido no governo anterior. O que, claro, não tem absolutamente nada de errado! Nenhum governo (ninguém, na verdade) é 100% bom ou ruim, basta que tenhamos clareza e crítica para reconhecer cada atitude ou fato como deve ser, sem paixões exacerbadas. E o que mais me assusta é ver postagens com este teor vindas de amigos queridos, que conheço de longa data, e que eu SEI serem pessoas boníssimas, com atitudes na vida pessoal muito diferentes do discurso que vêm propagando.
Em tempo: NUNCA votei no PT (apesar de ter balançado no segundo turno das eleições de 1989 e nesta de agora, justamente por não querer Collor e nem Bolsonaro), tampouco votei no atual presidente, o que me deixa bastante confortável para concordar ou discordar de quem quer que seja. Até porquê nunca tive "político de estimação". Adorar só adoro a Deus e ao Cristo. Pessoas de carne e osso, para mim, no máximo são amadas, desde que tenhamos consciência de seus defeitos e qualidades. Ninguém é perfeito ou livre de cometer erros, nem eu, nem você, e muito menos os governantes, que em boa parte das vezes vai agir em prol de seus interesses antes de pensar na população.
Não estou aqui me isentando de responsabilidade não, jamais deixei de votar, apenas não consegui MESMO escolher entre dois candidatos que eu simplesmente não queria, seja por questão ideológica, seja por medo (sim, este presidente me assusta MUITO!), e acabei usando meu direito de anular e deixar que os outros decidissem algo que eu não queria de qualquer forma. E, de mais a mais, não estou aqui para debater política. Já parei de falar disso há MUITO tempo, porque realmente não tenho mais paciência. A questão central, para mim, é mesmo a intolerância que impera as relações atualmente. Reais e virtuais. TUDO é motivo de encrenca. Como este meme, que retrata exatamente o que acontece hoje:

Vale para tudo, tudo mesmo, e eu já até falei aqui algumas vezes a respeito. No banco eu percebo pessoas que chegam à agência prontas para brigar, seja qual for o motivo. Como disse ao segurança outro dia: do jeito que as coisas estão, se eu der "bom dia" e já tiver passado de meio-dia, é capaz de gritarem comigo que já é "boa tarde"! Porque está neste nível. As pessoas brigam para ver quem é mais prioritário, pedem informação e não esperam você falar, já saem gritando e dizendo que você não está entendendo, querem ajuda mas não sabem esperar a vez, interrompem o atendimento do outro... é sério! Passo por isso diariamente, várias vezes ao dia!
E na internet, protegidos pela distância física, o fato de não estar "cara a cara", e muitas vezes um "pseudoanonimato", as pessoas se exaltam ainda mais, por coisas muito pequenas! Julgam o outro (e condenam, o que é ainda pior) com uma facilidade absurda. Outro dia, só para dar um exemplo, vi um vídeo muito fofo de uma moça que gravou a cadelinha dela indo até a cerca e dividindo seu cobertor com um cãozinho que estava na rua. Para quê??? Choveram críticas! Que ela tinha que ter colocado um cobertor para o cãozinho! (alguém sabia se ela TINHA um cobertor disponível? Se fosse eu, não teria, lamento.) Mas por quê ela não adotou o cãozinho? (e no post ela até dizia que ele já estava acolhido, mas as pessoas só leem o que interessa...) E por aí foi! Não tem cabimento!!! Se cada um cuidasse mais de sua própria vida e menos da alheia, viveríamos bem melhor, sabem?
E eu estou numa fase que realmente a paciência tem me faltado para essas coisas. Tenho passado tanta coisa desde aquela enchente há mais de oito anos (e não, minha vida não se resolveu desde então, continuo passando "poucas e boas", apesar de poucos saberem a realidade), que sinceramente não dá para ficar procurando "pelo em casca de ovo" e menos ainda me desgastando com o que não vale a pena. Estou muito cansada, de verdade, de ver tanta briga, tanta mentira, tanto ódio sendo espalhado, ainda mais precisando manter a cabeça serena para dar conta da minha vida e dos rolos que vêm se acumulando desde 2011.
Com isso, fui parando de escrever... até elaborei uns dois ou três textos, mas não publiquei. E por enquanto vou dar um tempo por aqui mesmo. Não vou desativar o blog por completo, porque ainda pretendo voltar em algum momento, e também quero reativar a loja, estou trabalhando para isso mas as "encrencas" interferiram na forma como vou poder fazer isso. Então prefiro por enquanto ficar mais na minha, curtindo Gregório e Ágatha, e a delícia de ser tia-vó, e tentando acertar minha vida de uma vez, porque mais de 8 anos é tempo demais para estar enrolada, né? Já deu!
Eu volto. Só que desta vez, não faço mesmo ideia de quando!
Andrea

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Aborto x Vida


Ultimamente tenho visto muita discussão acerca da descriminalização do aborto e do direito da mulher ao seu corpo. Os argumentos são os mais diversos e, vistos sob o prisma material, até têm certa lógica. Mas não se vistos sob o prisma espiritual. :/

Ok, eu entendo que não se está discutindo religião, e que o estado brasileiro é laico. Não quero bancar a “dona da verdade”, respeito todos os pontos de vista, e posso até aceitar a opinião de cada um. Cada um tem sua verdade, de acordo com o seu entendimento acerca da vida e dos seus ‘mistérios”. Mas isso não significa, de forma alguma, que eu concordo com os argumentos colocados, ou que me é possível apoiá-los, mesmo que para agradar os outros. Respeitar é uma coisa, concordar é outra bem diferente. E, da mesma forma que aqueles que são favoráveis à descriminalização do aborto querem que eu respeite sua posição, também quero que respeitem a minha. ;)

Minha família tem base espírita, e o entendimento que adquiri desde pequena sobre a Lei Evolutiva, sobre a Lei do Carma, torna impossível dissociar os dois prismas. Já dizia Einstein: “A ciência sem religião é manca; a religião sem ciência é cega”. Material e espiritual se complementam, não há como separar um do outro. Ponto.

O homem, mais do que este ser material, é um ser espiritual. O corpo físico é um veículo que recebemos ao encarnar, com a finalidade de cumprirmos aquilo para o qual viemos, e que devolveremos quando nossa estada por aqui terminar. Não é “nosso”, deveríamos respeitá-lo e cuidar dele da melhor forma possível, o que na maior parte das vezes não acontece.

Por outro lado, a partir do momento em que há fecundação, há vida. Minúscula, é verdade, mas vida. É a partir deste momento que o espírito assume o zigoto, e começa a imprimir suas características para modelar o corpo físico que usará durante o período em que estiver encarnado. Vida. E ceifar uma vida, para mim, é crime. Simples assim. Sem contar que legalizar o crime afeta, ainda, o astral coletivo, que já é tão carregado.

Não cabe em minha cabeça o descarte de uma vida, seja embrionária ou não. Por isso mesmo, não sou favorável à pena de morte, não aceito o descarte de embriões em clínicas, a seleção de embriões em laboratórios, os experimentos com animais ou embriões, sequer me alimento de carne. Quem decide a hora de quem quer que seja encerrar sua vida na Terra é Deus, não eu ou qualquer outro ser humano. Ninguém tem (ou deveria ter) tal poder. E, se isso não cabe em mim, como posso ser favorável a dar esta opção a alguém? Eu estaria agindo contra os meus princípios, contra a minha Verdade, não seria EU!

“Ah sim, então se você fosse estuprada e engravidasse, acha que deveria levar a gestação adiante”? Sim. Deveria. Porque não acreditaria, em momento algum, que tivesse ocorrido um “erro de cálculo”. Deus não cochila. Não cai uma folha da árvore sem que Ele assim determine. Tem mulheres que levam anos tentando engravidar em vão. E, de repente, um único ato (violento, ok) é capaz de fecundar e gerar a vida. Acaso? Não acredito mesmo. Essa gestação ocorreu pela lei do carma, com toda a certeza algo de muito sério existe entre aqueles seres, e fugir da situação só vai adiar algo que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser resolvido. É pesado? Sem dúvida, nem consigo imaginar como é lidar com isso, mas tem algo ali que não pode ser ignorado. E eu acredito, piamente, no ditado que diz que “Deus dá o frio conforme o cobertor”, ou seja, ninguém recebe uma carga maior do que aquela que é capaz de suportar. Mesmo que a maioria pense o contrário!

“Ah, então é melhor abandonar a criança para adoção”? Acredito que sim. Talvez até esteja negando a tarefa a que se propôs ao encarnar, mas pelo menos não ceifará uma vida. Talvez, ao contrário, seja apenas um veículo para que a vida em seu ventre possa equilibrar seu próprio carma. Quem pode saber a complexidade que envolve o caminho de cada um?

Quando minha irmã engravidou aos 15 anos, muita gente lamentou a gestação ser descoberta já tardiamente, porque minha mãe não poderia “forçá-la a tirar” a criança. Como se minha mãe sequer pensasse em fazer isso... Quando minha irmã engravidou novamente aos 17, e aí a gestação descoberta logo, houve uma enxurrada de pessoas que aconselhou minha mãe a fazê-la abortar! Meu Deus... como assim? o.O Como posso imaginar, hoje, minha vida sem a presença de Samara e Thabata? Moças lindas, já com 20 e 18 anos... mesmo com todo o trabalho que Thabata me deu por conta da dependência química, jamais trocaria sua existência por nada. Em tudo que passei nos últimos anos, agradeci e agradeço a Deus diariamente por tê-las ao meu lado. Ainda que Alessandra não tenha assumido a responsabilidade como deveria, isso é uma escolha dela, de seu livre-arbítrio. E as consequências dessa escolha é ela quem vai ter que acertar, nesta encarnação ou numa próxima.

Sim, o livre-arbítrio existe. Foi dado ao homem fazer escolhas, o que não significa que estas estejam de acordo com as Leis Espirituais. Mas ao fazer uma escolha, deve-se estar consciente de que toda ação gera uma consequência. É a Lei do Carma. Tudo que aqui passamos tem um propósito. Provas, quase sempre, surgem para equilibrar algum ato falho que cometemos anteriormente. Sabe aquela história de que a gente colhe aquilo que semeia? Pois é. :/

Conformismo? Longe disso. Apenas entendimento de que sou pequena demais para compreender o bordado que Deus está preparando para minha vida. Tudo tem uma explicação, tudo tem uma razão de ser, ainda que a nossa mente não seja capaz de captar. E isso vale para tudo, não só a gestação.

Foi essa a visão que tive quando minha mãe partiu tão cedo, quando passei pelas enchentes e perdi tudo o que tinha de material, quando meu pai adoeceu e acabou partindo de forma tão rápida. Jamais me revoltei. Tive momentos, sim, de profunda tristeza, até de desespero emocional, porque afinal de contas sou humana. Tenho fraquezas e pontos a serem melhorados, ou não estaria aqui neste nosso planetinha. Mas, imediatamente após baquear, eu lutava para me reerguer, porque sempre acreditei que tudo estava acontecendo como deveria, que tudo o que estava ocorrendo tinha motivo e, de repente, tinha até sido escolhido conscientemente por mim antes de voltar a encarnar por aqui. Porque isso acontece, é fato. :) Sempre que passava por algo difícil meu pai me falava apenas duas palavras: "Tenha Fé"! Ainda hoje sinto que o escuto falando isso... 

Claro que aqueles que desconhecem o espiritualismo, seja através da Doutrina Espírita ou qualquer outra vertente, têm dificuldade em aceitar seus preceitos. Consideram-nos falhos, e isso é natural. Chegam a considerar que o espiritismo (normalmente o mais citado, por ser mais conhecido) coloca o nascimento como castigo, quando está bem longe disso.

Entender que o bebê que está sendo gerado não caiu aqui “de paraquedas”, que tem uma história por trás, nós a serem desfeitos, laços a serem trabalhados, traços a serem melhorados, simplesmente abre uma compreensão muito maior sobre a vida dele. Permite entender os “disparates” que encontramos, de bebês que partem logo após o nascimento, ou que nascem cheios de limitações, enquanto outros chegam “perfeitos”, às vezes vivem até se tornarem centenários. Explica porque alguns têm a vida tão fácil, cheia de regalias, ao passo que outros têm uma prova após a outra. Tudo tem motivo. Tudo. E é na concepção que o desenho começa a ser traçado.

Mas não cabe a mim discutir ou, pior, impor nada a ninguém. Primeiro porque, como disse, cada um tem sua própria verdade, de acordo com suas crenças. E, também, o tema é muito complexo. Já escrevi um monte e nem comecei a elaborar direito... há tanto a ser dito ainda! Eu apenas espero que as pessoas aceitem a minha posição, da mesma forma que querem (ou exigem) que eu aceite a delas. ;)

Não posso ser favorável à descriminalização do aborto, porque isso fere o âmago de meu ser, fere todos os princípios nos quais acredito e pelos quais eu vivo. Mas nós vivemos numa democracia, aqui neste plano material, não? Todos têm direito a opinar, e a opinião da maioria vence (seja acertada ou não). Então, se a maioria decidir pela descriminalização, terei que aceitá-la como verdade, por mais que me doa, por mais que não concorde, por mais que lamente. Mas, de forma alguma, posso pactuar com tal decisão.

Eu volto.

Andréa

(A imagem que ilustra este post é muito significativa. Mostra um feto de 21 semanas sendo operado dentro do ventre para corrigir uma espinha bífida, e que em determinado momento segura a mão do médico que o opera. Vida.)

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O Enem 2014 e a Educação




A divulgação do resultado do Enem/2014 trouxe novamente à tona a discussão sobre a qualidade do ensino no país. A baixa nas notas, em comparação com o ano anterior, o crescimento assustador de notas zero nas redações vêm demonstrar que há algo de muito errado acontecendo, e não é de hoje. Alguma novidade nisso? :/

O problema é que a Educação, como um todo, precisa mudar. E a mudança tem que ser desde a base, de forma a proporcionar, de fato, aprendizado aos alunos, a todos eles, respeitando a diversidade, tornando-se inclusiva de verdade. Impossível? Claro que não. Mas requer vontade de mudar, disposição em todas as instâncias e, acima de tudo, coragem. ;) 

A cada dia que passa surgem novas experiências, não só por aqui, mas no exterior também, de formatos completamente diversos deste que conhecemos, e que vêm funcionando muitíssimo bem. Por que não olhar em volta? :D Esse modelo de alunos sentados nas carteiras com o professor à frente explicando a matéria, para depois serem avaliados através de notas, provas, podia até funcionar antigamente, hoje não mais. Bom, na minha opinião, há muito tempo que não. E os alunos são, hoje, muito mais "ligados", "conectados", ativos mesmo. Como é possível querer que fiquem sentados, ouvindo o "blá-blá-blá" dos professores passivamente? Perde-se o interesse fácil!

Quando eu estava na escola, e isso já faz um tempinho, nunca consegui enxergar a prova como sendo instrumento de avaliação. Para mim, era muito mais um instrumento de tortura! Quem nunca se sentiu assim? Eu chegava a ter crises de asma em véspera de prova, isso não pode ser saudável! :(

As provas retratam, no máximo, um momento do aluno, não necessariamente o seu conhecimento. Até porquê ele pode "colar" do colega... ;) Se ele não dormiu bem à noite, se a avó está doente, se o pai brigou ou, até mesmo, se estiver muito nervoso, pode tirar uma nota baixa apesar de saber a matéria. Quem nunca teve um "branco" na hora de uma prova? Eu já, e foi terrível! :( Fora erros "de distração", que eram o meu terror na matemática. Era a matéria que ia melhor, mas vira e mexe fazia umas besteiras... que nem eu mesma acreditava quando via a correção do professor! :/ E, na verdade, não é assim sempre? Ou você nunca teve algum dia de não se sair bem no trabalho por alguma questão externa? Por "não estar bem" ou "não estar com cabeça" para aquilo ou... "estar meio devagar"? Natural que sim! Não somos robôs!

Apesar desse meu sentimento desde sempre, a comprovação veio quando a escola onde minha irmã estudava fez uma experiência com ela, que estava se saindo mal em matemática, e a professora não entendia o motivo, porque ela parecia saber a matéria. O que fizeram então? Passaram uma folha de exercícios, para a sala toda resolver, e no final a professora corrigiu o exercício de minha irmã como se fosse prova. Ela teria tirado 8,5 ou 9,0. No dia seguinte, aplicaram a mesma folha, mas mudaram o nome para "prova". A nota dela caiu para 3,5! o.O Ela não sabia a matéria ou simplesmente tinha pânico de prova? E o que fazer? Reprovar porque ela não tinha nota ou aprovar porque ela sabia a matéria? Percebe?

Sem contar que a maior parte das provas é feita sem que o aluno possa consultar seu material. Por quê? Para consultar (e não "colar" ou simplesmente copiar), o aluno tem que saber o que está buscando, e onde encontrar. Teria muito mais tranquilidade para responder se soubesse que tinha o suporte de poder olhar o material, caso fosse preciso. E, em muitos casos, este suporte nem seria usado, apenas estaria ali, dando maior segurança. Afinal, o professor não consulta seu livro quando está explicando a matéria? Não faz anotações, lembretes? Um palestrante não tem fichas para guiar sua apresentação? Um empresário não tem seu discurso impresso quando vai falar em público? Ah sim, nem todos! Há os que falam de improviso, há os que fazem palestra sem precisar de apoio, mas estes têm um talento nato ou, pelo menos, um treino absurdo, não é o padrão! Então porque se exige dos estudantes que saibam tudo "de cor e salteado"? Para quê tanta pressão? É massacrante isso! :(

Eu lembro de uma prova de Física que fiz no Ensino Médio, e que exemplifica isso tudo. Eletricidade. Estudei com meu pai, que era engenheiro eletrônico, até ele me mandar parar e relaxar porque estava mais do que preparada para a prova, até para tirar dez! No dia seguinte, na hora em que peguei a prova, eu não lembrava NADA! Nada! :'( Foi me dando um pânico... tinha certeza de que ia zerar, porque não conseguia lembrar. E quanto mais nervosa ficava, mais difícil da memória funcionar, óbvio. O que me salvou foi o professor, que percebeu meu mal estar, passou por mim perguntando se estava tudo bem, e eu respondi que não. Aí ele me soltou uma parte de uma das frases que usava para que decorássemos as fórmulas. Eu lembrei aquela, anotei correndo e fui procurar a questão onde ela poderia ser usada. E ele fez isso algumas vezes, passava por mim, soltava alguma coisa e, com isso, cheguei a tirar uma nota seis. Mas, se o professor não me conhecesse ou não tivesse sensibilidade, eu teria tirado zero mesmo tendo domínio da matéria. Seria justo? Agora, se fosse permitida a consulta, eu não teria passado o nervoso que passei, porque uma olhada rápida no caderno seria mais do que suficiente para eu ter resolvido a prova inteira, sem nenhuma dificuldade, e minha nota teria sido até melhor.

Então como avaliar o conhecimento? No dia-a-dia, a partir da interação aluno x professor. Usando a chamada avaliação formativa, que é contínua, e que compara o aluno com ele mesmo, e não com o todo. Que valoriza o tamanho do passo dado pelo aluno, mais do que o ponto atingido. Que consegue detectar pontos que não ficaram bem esclarecidos, permitindo um eventual reforço logo que surge a necessidade. É uma avaliação que ajuda a valorizar as competências ao invés dos déficits, e usar os pontos fortes para superar os eventuais pontos fracos. É uma forma de avaliação que favorece a inclusão também, porque o ritmo do aluno é respeitado, as conquistas são valorizadas, os pontos "falhos" são trabalhados. Desta forma, ao invés de esperar que todos atinjam um mesmo patamar ao mesmo tempo, espera-se que todos cresçam, verdadeiramente, de forma contínua e consistente. :D

Sem contar que, em muitos casos, o que se ensina na escola não tem aplicação prática depois! Muita coisa é ensinada sem um contexto próximo que dê significado daquilo ao aluno. Não se usa a realidade do aluno, o interesse dele. Usando de sinceridade: quanto da matéria que aprendeu na escola você se lembra? Ou, pior, faz uso no dia-a-dia? Você lembra mesmo a tabela periódica, os íons, prótons, elétrons, combinações, cálculos, que aprendeu anos a fio em Química? É relevante para você saber se no texto que está escrevendo tem uma oração subordinada "não sei das quantas"? Você lembra como calcular um circuito elétrico? Lembra as datas de todas as batalhas da História? Melhor ainda: lembra todos os afluentes do Amazonas? :/ Ah, então nada disso deve ser ensinado? Claro que deve! Mas de forma coerente, trazendo para o cotidiano do aluno a sua finalidade, dando significado para o que está sendo ensinado. Mais do que isso: deve-se estimular a curiosidade do aluno, para que ele queira saber mais, queira pesquisar, descobrir. ;)

É como aquelas "provas do livro" que eu tinha em menina, e que devem existir ainda. Você lia um livro, escolhido pelo professor, e depois tinha que fazer uma prova sobre ele. Eu o-di-a-va! Sério! E olha que eu sempre li muito! Era frequentadora voraz da biblioteca da escola, minha mãe era sócia daquele "Clube do Livro" e vivia comprando novidades para todos em casa, eu inclusive (claro!). ;) Mas eram livros que me interessavam, que eu "devorava", e sobre os quais eu poderia falar a respeito, tranquilamente. Agora... ler forçada? Já lia de má-vontade! :/ Ainda mais se o professor não soubesse "vender" a ideia. O melhor exemplo disso é o "Anarquistas Graças a Deus" da Zélia Gattai, que fui obrigada a ler como parte da disciplina de OSPB (nossa... alguém lembra disso???) quando estava na 8ª série. Eu odiava a matéria, a professora, e li o livro com taaaaanta vontade, que detestei desde a primeira página. :( Algum tempo depois, a minissérie foi lançada na Globo, e eu nem assisti (eu,hein? o.O). Mas minha mãe viu, e se interessou em ler o livro. Amou. E falou tanto, com tanta vibração, que eu resolvi reler, agora com outros olhos. Conclusão? Virei fã ardorosa da Zélia, li todos os livros que ela escreveu, diversas vezes! Aliás, preciso reler novamente, faz tempo que não faço isso!!! :D

E isso já é visto em escolas no exterior, e em algumas "escolas alternativas" aqui no Brasil. Nestas escolas pioneiras, os alunos são os senhores de seu aprendizado. São o elemento principal. Os professores são mediadores, instigadores, orientadores. As classes, turmas, séries, não são tão importantes em muitos casos, porque um aluno mais velho, ou com maior domínio de alguma disciplina, pode auxiliar aquele que está começando. E pode aprender com este também, porque não? Os saberes são tantos! :) Nestas escolas, as salas de aula inexistem no formato que conhecemos, muitas vezes nem têm paredes, e ao invés de carteiras tradicionais encontramos outros formatos, agrupamentos, além de sofás, poltronas... o conhecimento é obtido pela pesquisa, que parte do interesse dos próprios alunos, e o professor ajuda no direcionamento, questiona, abre novos pontos de vista, relaciona outras disciplinas àquela que estiver servindo de eixo principal. Ah, mas assim o aluno só vai aprender o que quer! Não! Ele vai querer saber cada vez mais, vai ser desafiado o tempo todo, vai ficar curioso, vai ter que "botar a cabeça para funcionar". :D Não vai ser um elemento passivo, mas ativo. E muito ativo. Mesmo alunos com deficiência intelectual são favorecidos em uma estrutura assim. Porque eles passam a ter voz, a serem desafiados. Precisam sair da "zona de conforto" e ir em busca, tornar-se mais independentes. ;) Os exemplos mais conhecidos talvez sejam as escolas com a metodologia Waldorf, e a Escola da Ponte em Portugal, mas existem muitas outras trilhando estes caminhos, distanciando-se da educação tradicional. 

Sem contar que muitas destas escolas têm usado a tecnologia a favor da Educação. Ao invés de proibirem o uso de tablets e celulares, estimulam. Sem que sejam usados às escondidas, os alunos aprendem a extrair dessas ferramentas, conhecimento. Fazer pesquisas, compartilhar informação. A música pode sair do fone de ouvido para ter relação com a História, com a Língua Portuguesa, e até com a Matemática! :D Num mundo globalizado como o de hoje, onde está se tornando mais fácil encontrar um aluno sem tênis do que sem celular, não há mais como fugir da tecnologia. E como negar que aprender usando computador, tablet, celular, internet, fica muito mais divertido e interessante? ;) Havendo interesse no aprendizado, as distrações deixam de fazer sentido! Há tempo para tudo! 

O que essas escolas têm feito, na verdade, é aproveitar as inteligências múltiplas descritas por Gardner! Porque cada um tem uma forma de aprender, de processar as informações. Não à toa, cada um tem mais facilidade em determinadas disciplinas do que em outras. Mas se souber usar suas habilidades, acabará por conseguir superar as dificuldades a aprender de tudo! :D 

E as escolas que têm mudado sua visão estão observando melhoras no rendimento dos alunos, e em muitos casos são estes alunos justamente que se sobressaem em avaliações do governo (como seria o Enem) frente aos alunos ensinados ainda pelo método tradicional. Como assim? Se não estão habituados a fazer provas, a serem cobrados? o.O Sim, mas eles SABEM as matérias de fato, então torna-se tranquilo demonstrar isso. Não carregam o peso de terem sido cobrados o tempo inteiro, de terem que provar a todo momento se estão realmente aprendendo. Os alunos têm confiança em si mesmos, têm segurança naquilo que conhecem, porque aprenderam de verdade, de maneira consistente. Responder sobre aquilo torna-se natural e, até mesmo, desafiador. E eles já aprenderam que desafios estão aí para serem encarados e superados! ;) Como diz José Pacheco, da Escola da Ponte: "o que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas nacionais e nos vestibulares." E ainda completa: "dar aula não serve para nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito tempo e muita reflexão." Preciso dizer que sou fã de carteirinha desse sujeito??? :D

Ah, mas você está falando de uma utopia! Não!!! Como disse, há diversas escolas, em diversos países, experimentando essas mudanças. Não é algo que ocorre de um dia para o outro, claro que não. Até porquê mudar a mentalidade das pessoas é muito difícil. Estes dias mesmo vi uma reportagem falando que a França está debatendo a abolição das notas nas escolas. De onde está vindo a maior resistência? Dos pais! o.O Como cobrar os filhos sem o boletim??? É complicado para eles perceber que neste sistema não há porque haver tanta cobrança, porque o aprendizado irá acontecer de forma gradual e muito mais tranquila. É outra forma de lidar com as coisas. Então, não é só mexer com a estrutura das escolas, com a formação dos professores, é uma mudança que irá refletir na sociedade como um todo. Mas é necessária, cada vez mais. E aí? Será que você está disposto? ;)

Eu volto.

Andrea

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As aparências enganam...


De forma recorrente, e pelos motivos os mais diversos, estou sempre me deparando com situações de prejulgamento, preconceito, intolerância e radicalismo, que muito me incomodam. Recentemente, mais uma vez, vi-me diante de uma discussão que envolvia os quatro temas, o que me levou a resolver escrever. Falarei de cada um em separado, mas isso não significa que eles não se inter-relacionem. Ao contrário. Muitas vezes dois ou mais destes temas caminham de mãos dadas.

Ao prejulgar uma pessoa ou situação, estamos de antemão decidindo se somos a favor ou contra algo que não conhecemos por completo, temos apenas uma sensação inicial. Não é uma intuição, esta normalmente correta no que nos transmite, mas algo construído no plano mental, racional, a partir de fatos esparsos dos quais tiramos conclusões as mais precipitadas.

Eu era muito nova quando passamos (eu, meus pais e minha irmã) por uma situação que nos ensinou, para o resto da vida, a nunca prejulgar nada nem ninguém. Passávamos o Natal em Gramado, em 1984, e a lição que lá aprendemos foi extremamente marcante.

Estávamos hospedados em uma pequena pousada, "Vovó Carolina", pequena, super familiar, um clima tremendamente agradável. O café da manhã era o momento em que os hóspedes podiam interagir mais, porque acabava todo mundo se encontrando. Apesar de cada família sentar numa mesa, acabava virando uma grande sala de bate-papo, todo mundo conversando com todo mundo.

Na véspera de Natal, estávamos tomando café quando chegou uma família que não conhecíamos, haviam chegado no dia anterior. Pai, mãe e uma filha mocinha, de uns doze anos. Mal cumprimentaram as pessoas que lá estavam. Uma cara fechada, amarrada, que deixou o clima super estranho. Meu pai chegou a comentar que não entendia alguém viajar para uma cidade linda como aquela e conseguir ficar de mau humor. Mas, acabamos o café e saímos a passeio.

Em todos os lugares que íamos, parece mentira, mas a tal família também ia. Sempre secos, cara fechada. Não adiantava tentar não reparar neles, porque esbarrávamos a todo instante. Meu pai, principalmente, já estava incomodado com aquilo. Passou. Fomos para o hotel nos arrumar para a Noite de Natal, já que íamos passar numa churrascaria da cidade, de amigos nossos, onde tinha uma comemoração linda, com Terno de Reis e tudo o mais.

Chegamos à churrascaria na maior animação, sentamos na mesa que havíamos reservado, bem de frente para o palco onde eram feitas apresentações de dança. De repente, quem senta na mesa ao nosso lado? Bingo! A tal família de novo! Parecia até perseguição! Meu pai ficou "p"! Disse (para nós, claro) que se eles não queriam comemorar o Natal não deviam ter ido até lá, essas coisas. Mas, procurou se distrair porque, afinal, se o outro não estava a fim de comemorar, ele estava, e não ia estragar nossa festa.

À meia-noite o dono da churrascaria foi ao microfone desejar um feliz Natal a todos e pedir para que todos se levantassem e cumprimentassem quem estivesse ao seu lado, numa imensa confraternização. Ora, quem estava ao nosso lado era a tal família! Mas, levantamos, meu pai meio a contragosto, quando vimos o homem já ao nosso lado. Desejou-nos um feliz Natal, pedindo desculpas porque sabia não ter sido boa companhia, mas ele havia acordado naquela manhã com um telefonema informando que seu pai havia falecido (não lembro em que cidade, era longe à beça). Não haveria tempo hábil para ele chegar para o enterro, então ele havia decidido não estragar ainda mais o Natal de sua filha, sacrificando-se e permanecendo em Gramado até a manhã de Natal, quando pegaria a estrada de volta.

Não preciso dizer que ficamos todos (e meu pai principalmente, ele sempre falava isso) nos sentindo minúsculos! Por termos julgado as atitudes de alguém sem saber o que se passava realmente, por termos nos aborrecido com algo que nada tinha a ver conosco, deixando até de sermos solidários a alguém que precisava. Valeu a pena nossa atitude? Agimos certo?

E quantas e quantas vezes nos deparamos com situação semelhante onde, do alto de nossa empáfia, sentimo-nos superiores a outros, capazes de julgá-los, condená-los? Há alguns anos, um exemplo típico foi notícia na mídia: o "Caso Nardoni". Lembro bem dele porque fui muito criticada à época por minhas opiniões e por não aceitar fazer parte do "ódio coletivo". Lembrava ainda do que aconteceu com os donos da Escola Base, que perderam sua dignidade para depois serem inocentados (e nem por isso tiveram de volta a paz), lembrava do que havia vivenciado em Gramado. Então não condenei o casal, pura e simplesmente, esperei o desenrolar do caso para que fosse, afinal, comprovada sua culpa ou inocência. E como torci por essa segunda!

Mas muito antes das provas ou das conclusões da polícia, o casal foi condenado pela mídia e pela população. A incitação ao ódio, cujo ápice foram os fogos de artifício ao fim do julgamento, foi algo bárbaro, no pior sentido da palavra. Aquilo me incomodou tanto que até escrevi a respeito. Uma das coisas que mais me chocava era a comoção gerada com o caso. Não porque não o considerasse terrível, mas porque na mesma ocasião outros casos tão graves quanto o "Caso Nardoni" aconteceram e ninguém sequer se deu ao trabalho de comentar! Quanto mais de se revoltar, de exigir justiça! Por quê? Só porque a pequena Isabella era uma menina linda, da classe média de uma metrópole? Isso para mim não é justiça, é discriminação!

Discriminação, preconceito. Se antes estas palavras já me incomodavam, quando comecei a participar mais ativamente de grupos relacionados à inclusão de pessoas com deficiência, e mais especificamente relacionados à síndrome de Down, a coisa tomou um vulto muito maior. Porque as coisas que comecei a descobrir são tão tristes, tão chocantes... saber que ainda hoje existem pessoas, e o pior, médicos, favoráveis ao aborto no caso de se descobrir a deficiência na gestação, é algo terrível! Saber que crianças e jovens são esquecidos por professores, quando tentam cursar uma escola regular é, no mínimo, revoltante! Acabei decidindo cursar Pedagogia, para tentar fazer algo mais.

É extremamente cruel o preconceito. Graças a ele deixamos de conviver com pessoas fantásticas, que muito poderiam acrescentar em nossas vidas, pelo simples fato de “decidirmos” que determinada característica é errada, ou “feia”, ou qualquer coisa do gênero. É, na verdade, o prejulgamento de uma pessoa, baseado em sua cor de pele, sua religião, sua aparência, sua orientação sexual, ou qualquer outra característica, sem a preocupação de conhecer essa pessoa em sua essência, suas qualidades e defeitos. A diferença é que o preconceito normalmente se estende a todas as pessoas com aquela característica, não se restringindo a uma só.

E então eu descobri que minha sobrinha era dependente química. E descobri que essa doença (sim, é uma doença) também é cercada de muito preconceito e discriminação. O dependente químico além de conviver diariamente com uma batalha imensa, precisa conviver com as pessoas apontando e chamando de "maconheiro", "drogado", "bêbado", "mau caráter", "sem vergonha", ou outros adjetivos ainda menos elogiosos.

O dependente químico é, muitas vezes, visto como marginal, criminoso. Claro que muitas vezes ocorre mesmo a ligação com o mundo do crime porque, afinal de contas, a grande maioria das drogas é ilícita e, portanto, o dependente tem que, necessariamente buscar criminosos para consegui-las. E as drogas, além de tudo, afetam o doente, causando a perda de valores básicos, desvios de caráter, então a linha que separa o legal e o ilegal se torna ainda mais tênue. Mas, ainda assim, o dependente é um doente que merece respeito, atenção e cuidado.

Ah, mas ele não se trata porque não quer! Ele usa porque é sem-vergonha! Saiu da clínica e recaiu, não tem jeito mesmo, não presta! Mas será que os familiares, os amigos, a sociedade, contribui para essa recuperação? Quando se tem um hipertenso ou diabético na família, todos se mobilizam de forma a ajudá-los, mas será que isso também acontece com o dependente químico? Será que a família elimina as bebidas alcoólicas de casa? Será que os amigos toparão um programa sem elas? Digo sem medo de errar: na maior parte das vezes a resposta é NÃO. Eu falei bastante sobre isso em um texto anterior, depois que a Thabata saiu da clínica, não vou ficar me repetindo.

Recentemente, graças à discussão em torno da tal lei da "cura gay", o tema da orientação sexual veio à tona com tudo. Vi muita gente indignada, mas vi também muitos comentários repletos de preconceito. E isso me incomoda demais, não só porque sou contra toda e qualquer forma de discriminação, mas porque tenho amigos e amigas muito queridos que são gays, e são pessoas da melhor qualidade, que merecem todo o carinho, todo o respeito, toda a consideração do mundo! O fato de serem gays não significa absolutamente nada no "todo". O que me importa se a pessoa é gay, se ela é uma pessoa sempre disposta a estender a mão a quem precisa, a abraçar causas em prol dos mais fracos, se é incapaz de fazer mal a quem quer que seja? Melhor que fosse intransigente, egoísta, mesquinho, mas que fosse hetero? A orientação sexual é apenas UMA entre as inúmeras características da pessoa, mas de forma nenhuma é a maior determinante de seu caráter!

Mas, quando entramos neste campo, encontramos, também, a intolerância. De braços dados com o preconceito, a intolerância é algo terrível. Não é só o "não aceitar" a diferença, não é só o "não gostar" daquilo, é ainda mais agressivo e cruel. Ao tratar da orientação sexual vemos pessoas que não aceitam e nem tocam no assunto, que são capazes de mudar de calçada se encontrarem um gay, que se tornam até violentos! Pessoas são agredidas nas ruas, mortas, pelo simples fato de serem gays!

Antigamente isso era algo discutido apenas em torno da "cor da pele", o preconceito e a intolerância eram temas tratados quase que exclusivamente ao se falar das etnias. Ranço trazido pela escravidão, é claro, onde os negros eram tratados como objetos, ou até menos do que isso. Absurdo pensar que mais de 200 anos após a abolição da escravatura ainda exista tal pensamento, mas ele existe. Como se a cor de uma pessoa pudesse dizer a sua capacidade! Triste...

E não é exatamente isso que ocorre com as pessoas com deficiência? Parece que o simples fato de ter uma deficiência é capaz de determinar o que aquela pessoa será ou não capaz de fazer. Como se nós tivéssemos o poder de saber o NOSSO próprio limite, o que dirá dos outros! Eu mesma já me vi fazendo coisas que jamais imaginaria ser capaz! Como posso falar de outras pessoas então? Se as oportunidades forem dadas, certamente iremos nos surpreender, porque ninguém é capaz de adivinhar até onde o outro pode ir!

Quando encontramos a intolerância, encontramos também o radicalismo. Seja travestido de algo positivo ou negativo, não importa, é perigoso e, muitas vezes, cruel. Há aqueles que são intolerantes, como falei acima, com gays ou negros, que são pessoas cheias de preconceito e que simplesmente se acham melhores do que os outros, mais merecedores do que quer que seja.

Mas há também aqueles que são intolerantes com os que têm uma religião diferente da sua, como se só a sua fosse detentora da Verdade, ou aqueles que são intolerantes com os que não abraçam a mesma causa que eles, como algumas pessoas que lutam pelos direitos dos animais ou das pessoas com deficiência.

Não há nada errado em ter uma religião ou defender uma causa, ao contrário! O errado é achar que aqueles que pensam de forma diferente são pessoas menos dignas, de pior caráter, desprezíveis mesmo. Unem à intolerância o radicalismo. E como isso é perigoso! Porque o radicalismo acaba prejulgando as pessoas que pensam de forma diferente por suas atitudes e escolhas. Pegando o exemplo da defesa dos direitos dos animais, a pessoa radical, além de combater aqueles que efetivamente maltratam animais, ainda vão contra os que não os têm como sua prioridade máxima.

Já ouvi gente se vangloriar de quanto gastou para ajudar um cachorrinho. Palmas! Se tem condições para isso, que faça! É louvável! Mas não julgue quem não tem condições de fazê-lo, ou quem investe aquilo que tem, de repente, para ajudar uma pessoa com deficiência, ou para comprar quentinhas para pessoas de rua, ou simplesmente para comprar um sapato novo! Quem conhece a história do outro? Quem conhece o íntimo do outro? Quem conhece as prioridades, as necessidades do outro? Julgar e condenar é tão fácil...

E essa semana acabei entrando em uma discussão (aquela que mencionei no início) no Facebook, num dos grupos que participo. Foi postada uma mensagem, pedindo para denunciar um perfil e uma página que estavam postando fotos de pessoas com síndrome de Down, com conotação preconceituosa. Visitei ambos, denunciei a página que era, realmente, de péssimo gosto (e não só com referência à síndrome de Down, diga-se de passagem), mas não encontrei no perfil indicado o tal preconceito. Estranhei, questionei (para quê!) e fui bombardeada por mensagens em maiúsculas (o que, na internet, entende-se como gritos - olha o radicalismo aí), tentando me provar por "A + B" que o rapaz em questão era preconceituoso.

Voltei ao tal perfil, afinal eu podia estar errada, revi as fotos que a pessoa postou, sempre com um comentário agradável, e me dei conta de que, em uma delas, e apenas em uma delas, as pessoas que visitavam o perfil postavam comentários grosseiros. Ok, mas isso era motivo para denunciar um perfil, pedindo para o Facebook excluí-lo? Afinal, o DONO do perfil não agiu, ao menos não era possível afirmar sua intenção, com preconceito! Se ele errou foi, pura e simplesmente, por não rebater os comentários grosseiros de quem lhe visitava. Será que era mesmo o caso de denunciar o rapaz como se fosse ELE o preconceituoso, ou devíamos aproveitar a oportunidade para orientá-lo? Uma mensagem "inbox" não seria muito mais proveitosa, muito mais correta? Não daria ao rapaz a oportunidade de rever sua postura e se tornar uma pessoa melhor?

A cada argumento que eu apresentava no grupo, o rebate era mais severo, mais radical. Até que a pessoa que vinha discutindo comigo soltou uma pérola, a fim de provar que o rapaz merecia ser denunciado: o rapaz era fã do McDaleste, aquele funkeiro assassinado durante um show recentemente e, por isso, não podia valer o prato que comia. Oi???

Eu não gosto de funk, nem ao menos conhecia as músicas do tal McDaleste, mas sei que as minhas sobrinhas gostavam dele. Thabata ficou sabendo durante a madrugada do que aconteceu, e quando eu acordei para trabalhar estava chocada, veio me mostrar os vídeos do show e tudo o mais. Vi filhos de amigas minhas postando no Facebook cedo, preocupados, querendo confirmar se era verdade que ele havia morrido. Nenhum desses jovens vale o prato que come então? Todos eles merecem ter o perfil do Facebook excluído porque são parte da escória da sociedade? Ah, poupe-me! "Mas espera aí! Sua sobrinha não é aquela que é dependente química? Então ela certamente está enquadrada, né?" Não! Mil vezes não! Thabata é dependente química sim, mas Samara não é, e nem os filhos das minhas amigas. Nada de generalizar! Uma coisa nada tem a ver com a outra!

O que aconteceu ali foi que, devido a uma denúncia de preconceito, eu me deparei com alguém intolerante, que se tornou radical ao ser rebatido e, por conta do seu radicalismo, prejulgou pessoas que nada tinham a ver com a história. Passou a ser ele o preconceituoso! Um erro justifica o outro?

Não preciso dizer que após rebater tal afirmação, retirei-me da discussão. Não valia mais a pena, perdeu o sentido. Mas eu precisava escrever a respeito. Um desabafo, talvez. Ou, talvez, eu ajude as pessoas a refletirem sobre suas atitudes e, com isso, semeie um pouco de compaixão, tolerância, amor ao próximo, quem sabe? Tomara que sim. Porque tenho visto, com uma frequência assustadora, pessoas se tornarem extremamente agressivas umas com as outras nas redes sociais, e eu sei que isso é reflexo das atitudes fora do mundo virtual. Como aconteceu na discussão que relatei acima, um comentário simples pode deflagrar uma guerra quando alguém não concorda com ele. E sempre vai haver quem não concorda, é de se esperar, já que cada um pensa de um jeito e tem direito a ter suas opiniões! Mas falta respeito pela opinião alheia, falta delicadeza nas respostas, falta AMOR nas relações. Não, não só nas relações. Falta AMOR e ponto. Em todas as situações. É hora de mudar.

O texto ficou enorme mas, creio, era necessário. Eu volto.

Andréa

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