domingo, 28 de julho de 2013

As aparências enganam...


De forma recorrente, e pelos motivos os mais diversos, estou sempre me deparando com situações de prejulgamento, preconceito, intolerância e radicalismo, que muito me incomodam. Recentemente, mais uma vez, vi-me diante de uma discussão que envolvia os quatro temas, o que me levou a resolver escrever. Falarei de cada um em separado, mas isso não significa que eles não se inter-relacionem. Ao contrário. Muitas vezes dois ou mais destes temas caminham de mãos dadas.

Ao prejulgar uma pessoa ou situação, estamos de antemão decidindo se somos a favor ou contra algo que não conhecemos por completo, temos apenas uma sensação inicial. Não é uma intuição, esta normalmente correta no que nos transmite, mas algo construído no plano mental, racional, a partir de fatos esparsos dos quais tiramos conclusões as mais precipitadas.

Eu era muito nova quando passamos (eu, meus pais e minha irmã) por uma situação que nos ensinou, para o resto da vida, a nunca prejulgar nada nem ninguém. Passávamos o Natal em Gramado, em 1984, e a lição que lá aprendemos foi extremamente marcante.

Estávamos hospedados em uma pequena pousada, "Vovó Carolina", pequena, super familiar, um clima tremendamente agradável. O café da manhã era o momento em que os hóspedes podiam interagir mais, porque acabava todo mundo se encontrando. Apesar de cada família sentar numa mesa, acabava virando uma grande sala de bate-papo, todo mundo conversando com todo mundo.

Na véspera de Natal, estávamos tomando café quando chegou uma família que não conhecíamos, haviam chegado no dia anterior. Pai, mãe e uma filha mocinha, de uns doze anos. Mal cumprimentaram as pessoas que lá estavam. Uma cara fechada, amarrada, que deixou o clima super estranho. Meu pai chegou a comentar que não entendia alguém viajar para uma cidade linda como aquela e conseguir ficar de mau humor. Mas, acabamos o café e saímos a passeio.

Em todos os lugares que íamos, parece mentira, mas a tal família também ia. Sempre secos, cara fechada. Não adiantava tentar não reparar neles, porque esbarrávamos a todo instante. Meu pai, principalmente, já estava incomodado com aquilo. Passou. Fomos para o hotel nos arrumar para a Noite de Natal, já que íamos passar numa churrascaria da cidade, de amigos nossos, onde tinha uma comemoração linda, com Terno de Reis e tudo o mais.

Chegamos à churrascaria na maior animação, sentamos na mesa que havíamos reservado, bem de frente para o palco onde eram feitas apresentações de dança. De repente, quem senta na mesa ao nosso lado? Bingo! A tal família de novo! Parecia até perseguição! Meu pai ficou "p"! Disse (para nós, claro) que se eles não queriam comemorar o Natal não deviam ter ido até lá, essas coisas. Mas, procurou se distrair porque, afinal, se o outro não estava a fim de comemorar, ele estava, e não ia estragar nossa festa.

À meia-noite o dono da churrascaria foi ao microfone desejar um feliz Natal a todos e pedir para que todos se levantassem e cumprimentassem quem estivesse ao seu lado, numa imensa confraternização. Ora, quem estava ao nosso lado era a tal família! Mas, levantamos, meu pai meio a contragosto, quando vimos o homem já ao nosso lado. Desejou-nos um feliz Natal, pedindo desculpas porque sabia não ter sido boa companhia, mas ele havia acordado naquela manhã com um telefonema informando que seu pai havia falecido (não lembro em que cidade, era longe à beça). Não haveria tempo hábil para ele chegar para o enterro, então ele havia decidido não estragar ainda mais o Natal de sua filha, sacrificando-se e permanecendo em Gramado até a manhã de Natal, quando pegaria a estrada de volta.

Não preciso dizer que ficamos todos (e meu pai principalmente, ele sempre falava isso) nos sentindo minúsculos! Por termos julgado as atitudes de alguém sem saber o que se passava realmente, por termos nos aborrecido com algo que nada tinha a ver conosco, deixando até de sermos solidários a alguém que precisava. Valeu a pena nossa atitude? Agimos certo?

E quantas e quantas vezes nos deparamos com situação semelhante onde, do alto de nossa empáfia, sentimo-nos superiores a outros, capazes de julgá-los, condená-los? Há alguns anos, um exemplo típico foi notícia na mídia: o "Caso Nardoni". Lembro bem dele porque fui muito criticada à época por minhas opiniões e por não aceitar fazer parte do "ódio coletivo". Lembrava ainda do que aconteceu com os donos da Escola Base, que perderam sua dignidade para depois serem inocentados (e nem por isso tiveram de volta a paz), lembrava do que havia vivenciado em Gramado. Então não condenei o casal, pura e simplesmente, esperei o desenrolar do caso para que fosse, afinal, comprovada sua culpa ou inocência. E como torci por essa segunda!

Mas muito antes das provas ou das conclusões da polícia, o casal foi condenado pela mídia e pela população. A incitação ao ódio, cujo ápice foram os fogos de artifício ao fim do julgamento, foi algo bárbaro, no pior sentido da palavra. Aquilo me incomodou tanto que até escrevi a respeito. Uma das coisas que mais me chocava era a comoção gerada com o caso. Não porque não o considerasse terrível, mas porque na mesma ocasião outros casos tão graves quanto o "Caso Nardoni" aconteceram e ninguém sequer se deu ao trabalho de comentar! Quanto mais de se revoltar, de exigir justiça! Por quê? Só porque a pequena Isabella era uma menina linda, da classe média de uma metrópole? Isso para mim não é justiça, é discriminação!

Discriminação, preconceito. Se antes estas palavras já me incomodavam, quando comecei a participar mais ativamente de grupos relacionados à inclusão de pessoas com deficiência, e mais especificamente relacionados à síndrome de Down, a coisa tomou um vulto muito maior. Porque as coisas que comecei a descobrir são tão tristes, tão chocantes... saber que ainda hoje existem pessoas, e o pior, médicos, favoráveis ao aborto no caso de se descobrir a deficiência na gestação, é algo terrível! Saber que crianças e jovens são esquecidos por professores, quando tentam cursar uma escola regular é, no mínimo, revoltante! Acabei decidindo cursar Pedagogia, para tentar fazer algo mais.

É extremamente cruel o preconceito. Graças a ele deixamos de conviver com pessoas fantásticas, que muito poderiam acrescentar em nossas vidas, pelo simples fato de “decidirmos” que determinada característica é errada, ou “feia”, ou qualquer coisa do gênero. É, na verdade, o prejulgamento de uma pessoa, baseado em sua cor de pele, sua religião, sua aparência, sua orientação sexual, ou qualquer outra característica, sem a preocupação de conhecer essa pessoa em sua essência, suas qualidades e defeitos. A diferença é que o preconceito normalmente se estende a todas as pessoas com aquela característica, não se restringindo a uma só.

E então eu descobri que minha sobrinha era dependente química. E descobri que essa doença (sim, é uma doença) também é cercada de muito preconceito e discriminação. O dependente químico além de conviver diariamente com uma batalha imensa, precisa conviver com as pessoas apontando e chamando de "maconheiro", "drogado", "bêbado", "mau caráter", "sem vergonha", ou outros adjetivos ainda menos elogiosos.

O dependente químico é, muitas vezes, visto como marginal, criminoso. Claro que muitas vezes ocorre mesmo a ligação com o mundo do crime porque, afinal de contas, a grande maioria das drogas é ilícita e, portanto, o dependente tem que, necessariamente buscar criminosos para consegui-las. E as drogas, além de tudo, afetam o doente, causando a perda de valores básicos, desvios de caráter, então a linha que separa o legal e o ilegal se torna ainda mais tênue. Mas, ainda assim, o dependente é um doente que merece respeito, atenção e cuidado.

Ah, mas ele não se trata porque não quer! Ele usa porque é sem-vergonha! Saiu da clínica e recaiu, não tem jeito mesmo, não presta! Mas será que os familiares, os amigos, a sociedade, contribui para essa recuperação? Quando se tem um hipertenso ou diabético na família, todos se mobilizam de forma a ajudá-los, mas será que isso também acontece com o dependente químico? Será que a família elimina as bebidas alcoólicas de casa? Será que os amigos toparão um programa sem elas? Digo sem medo de errar: na maior parte das vezes a resposta é NÃO. Eu falei bastante sobre isso em um texto anterior, depois que a Thabata saiu da clínica, não vou ficar me repetindo.

Recentemente, graças à discussão em torno da tal lei da "cura gay", o tema da orientação sexual veio à tona com tudo. Vi muita gente indignada, mas vi também muitos comentários repletos de preconceito. E isso me incomoda demais, não só porque sou contra toda e qualquer forma de discriminação, mas porque tenho amigos e amigas muito queridos que são gays, e são pessoas da melhor qualidade, que merecem todo o carinho, todo o respeito, toda a consideração do mundo! O fato de serem gays não significa absolutamente nada no "todo". O que me importa se a pessoa é gay, se ela é uma pessoa sempre disposta a estender a mão a quem precisa, a abraçar causas em prol dos mais fracos, se é incapaz de fazer mal a quem quer que seja? Melhor que fosse intransigente, egoísta, mesquinho, mas que fosse hetero? A orientação sexual é apenas UMA entre as inúmeras características da pessoa, mas de forma nenhuma é a maior determinante de seu caráter!

Mas, quando entramos neste campo, encontramos, também, a intolerância. De braços dados com o preconceito, a intolerância é algo terrível. Não é só o "não aceitar" a diferença, não é só o "não gostar" daquilo, é ainda mais agressivo e cruel. Ao tratar da orientação sexual vemos pessoas que não aceitam e nem tocam no assunto, que são capazes de mudar de calçada se encontrarem um gay, que se tornam até violentos! Pessoas são agredidas nas ruas, mortas, pelo simples fato de serem gays!

Antigamente isso era algo discutido apenas em torno da "cor da pele", o preconceito e a intolerância eram temas tratados quase que exclusivamente ao se falar das etnias. Ranço trazido pela escravidão, é claro, onde os negros eram tratados como objetos, ou até menos do que isso. Absurdo pensar que mais de 200 anos após a abolição da escravatura ainda exista tal pensamento, mas ele existe. Como se a cor de uma pessoa pudesse dizer a sua capacidade! Triste...

E não é exatamente isso que ocorre com as pessoas com deficiência? Parece que o simples fato de ter uma deficiência é capaz de determinar o que aquela pessoa será ou não capaz de fazer. Como se nós tivéssemos o poder de saber o NOSSO próprio limite, o que dirá dos outros! Eu mesma já me vi fazendo coisas que jamais imaginaria ser capaz! Como posso falar de outras pessoas então? Se as oportunidades forem dadas, certamente iremos nos surpreender, porque ninguém é capaz de adivinhar até onde o outro pode ir!

Quando encontramos a intolerância, encontramos também o radicalismo. Seja travestido de algo positivo ou negativo, não importa, é perigoso e, muitas vezes, cruel. Há aqueles que são intolerantes, como falei acima, com gays ou negros, que são pessoas cheias de preconceito e que simplesmente se acham melhores do que os outros, mais merecedores do que quer que seja.

Mas há também aqueles que são intolerantes com os que têm uma religião diferente da sua, como se só a sua fosse detentora da Verdade, ou aqueles que são intolerantes com os que não abraçam a mesma causa que eles, como algumas pessoas que lutam pelos direitos dos animais ou das pessoas com deficiência.

Não há nada errado em ter uma religião ou defender uma causa, ao contrário! O errado é achar que aqueles que pensam de forma diferente são pessoas menos dignas, de pior caráter, desprezíveis mesmo. Unem à intolerância o radicalismo. E como isso é perigoso! Porque o radicalismo acaba prejulgando as pessoas que pensam de forma diferente por suas atitudes e escolhas. Pegando o exemplo da defesa dos direitos dos animais, a pessoa radical, além de combater aqueles que efetivamente maltratam animais, ainda vão contra os que não os têm como sua prioridade máxima.

Já ouvi gente se vangloriar de quanto gastou para ajudar um cachorrinho. Palmas! Se tem condições para isso, que faça! É louvável! Mas não julgue quem não tem condições de fazê-lo, ou quem investe aquilo que tem, de repente, para ajudar uma pessoa com deficiência, ou para comprar quentinhas para pessoas de rua, ou simplesmente para comprar um sapato novo! Quem conhece a história do outro? Quem conhece o íntimo do outro? Quem conhece as prioridades, as necessidades do outro? Julgar e condenar é tão fácil...

E essa semana acabei entrando em uma discussão (aquela que mencionei no início) no Facebook, num dos grupos que participo. Foi postada uma mensagem, pedindo para denunciar um perfil e uma página que estavam postando fotos de pessoas com síndrome de Down, com conotação preconceituosa. Visitei ambos, denunciei a página que era, realmente, de péssimo gosto (e não só com referência à síndrome de Down, diga-se de passagem), mas não encontrei no perfil indicado o tal preconceito. Estranhei, questionei (para quê!) e fui bombardeada por mensagens em maiúsculas (o que, na internet, entende-se como gritos - olha o radicalismo aí), tentando me provar por "A + B" que o rapaz em questão era preconceituoso.

Voltei ao tal perfil, afinal eu podia estar errada, revi as fotos que a pessoa postou, sempre com um comentário agradável, e me dei conta de que, em uma delas, e apenas em uma delas, as pessoas que visitavam o perfil postavam comentários grosseiros. Ok, mas isso era motivo para denunciar um perfil, pedindo para o Facebook excluí-lo? Afinal, o DONO do perfil não agiu, ao menos não era possível afirmar sua intenção, com preconceito! Se ele errou foi, pura e simplesmente, por não rebater os comentários grosseiros de quem lhe visitava. Será que era mesmo o caso de denunciar o rapaz como se fosse ELE o preconceituoso, ou devíamos aproveitar a oportunidade para orientá-lo? Uma mensagem "inbox" não seria muito mais proveitosa, muito mais correta? Não daria ao rapaz a oportunidade de rever sua postura e se tornar uma pessoa melhor?

A cada argumento que eu apresentava no grupo, o rebate era mais severo, mais radical. Até que a pessoa que vinha discutindo comigo soltou uma pérola, a fim de provar que o rapaz merecia ser denunciado: o rapaz era fã do McDaleste, aquele funkeiro assassinado durante um show recentemente e, por isso, não podia valer o prato que comia. Oi???

Eu não gosto de funk, nem ao menos conhecia as músicas do tal McDaleste, mas sei que as minhas sobrinhas gostavam dele. Thabata ficou sabendo durante a madrugada do que aconteceu, e quando eu acordei para trabalhar estava chocada, veio me mostrar os vídeos do show e tudo o mais. Vi filhos de amigas minhas postando no Facebook cedo, preocupados, querendo confirmar se era verdade que ele havia morrido. Nenhum desses jovens vale o prato que come então? Todos eles merecem ter o perfil do Facebook excluído porque são parte da escória da sociedade? Ah, poupe-me! "Mas espera aí! Sua sobrinha não é aquela que é dependente química? Então ela certamente está enquadrada, né?" Não! Mil vezes não! Thabata é dependente química sim, mas Samara não é, e nem os filhos das minhas amigas. Nada de generalizar! Uma coisa nada tem a ver com a outra!

O que aconteceu ali foi que, devido a uma denúncia de preconceito, eu me deparei com alguém intolerante, que se tornou radical ao ser rebatido e, por conta do seu radicalismo, prejulgou pessoas que nada tinham a ver com a história. Passou a ser ele o preconceituoso! Um erro justifica o outro?

Não preciso dizer que após rebater tal afirmação, retirei-me da discussão. Não valia mais a pena, perdeu o sentido. Mas eu precisava escrever a respeito. Um desabafo, talvez. Ou, talvez, eu ajude as pessoas a refletirem sobre suas atitudes e, com isso, semeie um pouco de compaixão, tolerância, amor ao próximo, quem sabe? Tomara que sim. Porque tenho visto, com uma frequência assustadora, pessoas se tornarem extremamente agressivas umas com as outras nas redes sociais, e eu sei que isso é reflexo das atitudes fora do mundo virtual. Como aconteceu na discussão que relatei acima, um comentário simples pode deflagrar uma guerra quando alguém não concorda com ele. E sempre vai haver quem não concorda, é de se esperar, já que cada um pensa de um jeito e tem direito a ter suas opiniões! Mas falta respeito pela opinião alheia, falta delicadeza nas respostas, falta AMOR nas relações. Não, não só nas relações. Falta AMOR e ponto. Em todas as situações. É hora de mudar.

O texto ficou enorme mas, creio, era necessário. Eu volto.

Andréa

1 comentários:

Joanice Maria disse...

É as vezes o pré julgamento estar entre nós pais com filhos com deficiência

26 de agosto de 2013 16:29

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